Sociologia no ENEM

Desde 2009, a Sociologia está oficialmente presente na prova de Ciências Humanas e suas Tecnologias do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM)

Por Thiago oliveira lima Matiolli* e Alexandre Barbosa Fraga** | Foto: | Adaptação web Caroline Svitras

“Professor, se não cai no vestibular, por que aprender Sociologia?”. Esse questionamento, já ouvido por muitos dos profissionais que se dedicam a essa disciplina na educação básica, é apenas um indício do cunho utilitarista conferido ao conhecimento e à escola há algum tempo. Embora devamos demonstrar a eles que compreender o mundo à nossa volta, ou seja, refletir sobre a sociedade na qual estamos inseridos traz contribuições para além da capacidade de acertar questões, é inegável que a ausência da Sociologia no vestibular tira parte de sua legitimidade enquanto matéria escolar.

 

Por mais que se possa criticar o modelo de admissão ao ensino superior, enquanto ele se der dessa maneira e as demais disciplinas forem cobradas, a Sociologia precisa também ser incluída. Por que haveria diferença? Afinal de contas, essa deveria ser uma das consequências lógicas de sua obrigatoriedade em todas as séries do ensino médio. Conquista essa que foi precedida por um longo movimento de retorno, cujo passo importante foi a sua inclusão, em 1997, no vestibular da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Minas Gerais.

 

Exames realizados de 2009 a 2011: questões mobilizam conteúdos sociológicos, mas sem a necessidade de conhecimentos prévios da disciplina | Foto: Agência Brasil

 

Com exceção da UFU, é de meados ao final dos anos 2000 que a Sociologia passou a fazer parte dos exames de admissão a algumas universidades brasileiras. Em 2009, chegou ao ENEM. Atualmente, ela está presente diretamente no vestibular de pelo menos quinze universidades públicas espalhadas por todas as regiões do Brasil, além das instituições que utilizam o ENEM como uma ou a única de suas etapas. Neste último caso, geralmente, por meio da adoção integral ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que ganha cada vez mais importância.

 

Nesse sentido, sair-se bem no ENEM torna-se requisito fundamental para garantir vaga em uma das instituições públicas de ensino superior. Por estar incluída na prova, a Sociologia tem a sua parcela de contribuição. Se ela passa a ser, como as demais, responsável pela aprovação ou não dos candidatos, é preciso analisar de que forma vem sendo cobrada nas edições desse exame e, a partir disso, pensar em como é possível preparar os alunos para realizá-las satisfatoriamente. Obviamente, não como único fim das aulas de Sociologia, mas como parte delas.

 

Questões de Sociologia?
Temas das redações do Enem desde sua criação até o anos de 2012

A análise precedente indica que, no geral, há duas formas pelas quais a Sociologia marca presença diretamente nas provas do ENEM. A primeira, majoritária, interdisciplinar, seja contextualizando uma questão de humanas ou na interseção com outra disciplina. A segunda, menos frequente, por meio da interpretação do trecho de um texto de um autor da Sociologia.

 

O que há de comum a elas é que dificilmente requerem o acionamento de conhecimento sociológico prévio para a resolução da prova. Por mais que seja um exame pautado em competências, é evidente que cada questão demanda conteúdos específicos de uma ou mais disciplinas. É o que acontece, por exemplo, com a História e a Geografia, ora contextualizando para outra disciplina, ora pedindo apenas interpretação de texto, ora exigindo, respectivamente, o domínio de interpretações e fatos históricos e de conceitos, noções de cartografia, questões ambientais, características da população, entre outros.

 

A Sociologia no Ensino Médio

 

Nisso a Sociologia se difere, pelo menos por enquanto, das demais disciplinas no exame. Por que os conceitos, os temas e as teorias dela não são cobrados da mesma forma? Voltando à metáfora anterior, se, por vezes, a Sociologia levanta a bola para a História e a Geografia marcarem o ponto, é necessário que o caminho contrário também seja verificado na prova, ou seja, que algumas questões demandem saberes pretéritos aprendidos nas aulas de Sociologia.

 

Do contrário, faz parecer que não é preciso estudá-la para prestar o ENEM, colocando em risco a legitimidade alcançada por sua presença.

 

ENEM 2012: analistas enxergaram evolução em relação às edições anteriores | Foto: Agência Brasil

 

Por mais que a cobrança na redação e de modo interdisciplinar traga algum reconhecimento ao saber sociológico, a construção de questões que possam ir além da interpretação de texto é fundamental para a consolidação da Sociologia no exame. Há professores dessa disciplina entre os contratados para alimentar o banco de questões do ENEM, mas elas precisam ser escolhidas no momento da montagem da prova, de forma que não seja garantido apenas um equilíbrio das competências, mas também das disciplinas de cada área.

 

Para terminar, fica claro que algumas questões não requerem conhecimentos prévios de Sociologia, nem diálogo com outras disciplinas, mas a interpretação de trechos de textos escritos por sociólogos, antropólogos ou cientistas políticos. É necessário apenas que se compreenda a ideia de um autor geralmente clássico da área. Pode parecer fácil, mas muitos alunos têm dificuldade de interpretação, sobretudo quando o texto conjuga linguagem culta e pensamento abstrato. Sendo assim, a quarta atividade é inserir esse tipo de texto nas aulas e/ou nas avaliações, podendo dar origem a uma ação conjunta com a equipe de Português.

 

Ciências Sociais no Brasil

 

Tais atividades, além de prepararem os alunos para o ENEM, conseguem trazer uma maior legitimidade à Sociologia no espaço escolar, mesmo que de maneira mais “utilitária”. Legitimidade essa que, logicamente, precisa ser conquistada de muitas outras formas, talvez até mais eficazes, mas que passa pela defesa de um maior reconhecimento da Sociologia nos exames de admissão ao ensino superior, apresentando-se neles claramente com uma identidade própria, mesmo que seja em diálogo com outras disciplinas.

 

*Thiago Oliveira Lima Matiolli é doutorando em Sociologia pelo PPGS/USP. Mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR/UFRJ. Bacharel em Ciências Sociais pelo IFCS/UFRJ. E-mail: matiollithi@hotmail.com

**Alexandre Barbosa Fraga é doutorando em Sociologia pelo PPGSA/IFCS/UFRJ. Mestre em Sociologia pelo mesmo Programa. Bacharel e licenciado em Ciências Sociais pelo IFCS/UFRJ.
E-mail: alexbfraga@yahoo.com.br

Adaptado do texto “Sociologia no ENEM: uma análise crítica”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 46

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