Uma nova Guerra Fria se estabelece

Para Steve Sinsley, membro destacado da Veterans For Peace, associação anti-imperialista nos EUA, Rússia e China podem equilibrar forças militares e frear Estados Unidos e OTAN

Por Lejeune Mirhan* | Fotos: Steve Sinsley e arquivo pessoal do entrevistado | Adaptação web Caroline Svitras

Steve Sinsley mora nos Estados Unidos e integra diversos coletivos de tradutores internacionais em vários idiomas. É veterano da guerra do Vietnã e desde o término dela, em 1975, é ativo militante contra todas as guerras. É membro destacado da maior associação de veteranos anti-imperialistas dos Estados Unidos, a Veterans For Peace – VFP (Veteranos pela Paz). Engajou-se na luta antiguerra nos Estados Unidos. Foi um dos organizadores, e registrou, fotograficamente, a primeira grande manifestação pacifista da história dos EUA, ocorrida em 1971, em Washington D.C. Milhares de veteranos jogaram suas medalhas, capacetes, brasões e demais símbolos da guerra nas escadarias do Capitólio. Publicamos nesta entrevista algumas fotos dessa manifestação.

 

Em um momento em que as tensões internacionais se elevam, ouvi-lo pode nos ajudar na busca e na conquista de uma paz de caráter anti-imperialista.

 

Em primeiro lugar, fale-nos sobre sua trajetória como veterano da Guerra do Vietnã (1963-1975). Poucas pessoas se dão conta disso, mas ela foi iniciada sob um governo que tinha uma aura de “bonzinho”, que foi o de John Kennedy. (A Guerra do Vietnã ocorreu durante as presidências de Truman, Eisenhower, Kennedy, Johnson e Nixon.) Fale-nos sobre o início de sua militância nos movimentos antiguerra e pacifistas nos EUA e no resto do mundo. Por fim, fale-nos sobre as organizações de veteranos de que você faz parte, como elas atuam e o que fazem.

Manifestações contra a guerra do Vietnã em Washington D.C., sob as lentes de Sinsley

Existem coisas que a maioria das pessoas nos EUA não sabe sobre o Vietnã. Durante a II Guerra Mundial, o presidente Franklin Delano Roosevelt entrou em contato com Ho Chi Minh, líder da resistência vietnamita, e prometeu que, se ele e seus guerrilheiros salvassem pilotos americanos derrubados pelos soldados japoneses no Vietnã, os EUA não deixariam os franceses retomarem sua colônia, garantindo a independência do Vietnã.

Lamentavelmente, Roosevelt morreu durante a guerra e seu vice-presidente fascista, Harry Truman, ignorou a promessa e ofereceu para a França armas, dinheiro e até uma bomba atômica (que os franceses rejeitaram).
Depois da derrota dos franceses na batalha de Dien Bien Fu, o acordo de paz estipulava eleições no Norte e Sul do Vietnã. Ho Chi Minh ganhou no Norte, mas os EUA de Truman proibiram qualquer eleição no Sul. Assim recomeçou a guerra da independência do Vietnã. Cinquenta e nove mil americanos e mais de três milhões de vietnamitas morreram nessa guerra maldita.

Até hoje muitos vietnamitas que nasceram depois da guerra sofrem e morrem por causa das bombas enterradas (minas) nas plantações de arroz. E, também, até hoje vietnamitas nascem com problemas físicos e mentais por causa da guerra química, do Agente Laranja (Dioxina, desfolhante). Usaram também de forma ampliada e abusivamente esse componente químico desenvolvido na II Guerra, chamado Napalm, altamente inflamável. Além de incendiar tudo em volta, onde essas bombas caíam retiravam do ar seu oxigênio.

Há também um fato muito triste sobre a alta taxa de suicídio entre veteranos de guerra que sofrem de PTSD – Posttraumatic Stress Disorder (desordem emocional causada por estresse de guerra): mais de 20 veteranos de guerra (de todas as guerras) se suicidam por dia nos Estados Unidos.

Quando saí do serviço militar, estava mais desiludido do que nunca. Afiliei-me ao grupo – VVAW – Vietnam Veterans Against the War (Veteranos do Vietnã contra a Guerra), que na verdade foi formado já nas selvas do Vietnã, em 1967, por soldados americanos.

Mais tarde, me juntei ao grupo Veterans For Peace – VFP (Veteranos pela Paz). Participei de várias manifestações contra a guerra, em Nova Iorque e em Washington D.C. Depois, em 1970, fui para Cuba auxiliar no corte de cana-de-açúcar por dois meses, como membro na 2ª Brigada Venceremos. Foi um ato de solidariedade da parte de mais de 500 americanos de todas as idades e etnias. Essa experiência foi muito importante para mim e me marcou para o resto da vida, assim como consolidou a minha solidariedade com a América Latina (tenho fotos desse período também).

Manifestações contra a guerra do Vietnã em Washington D.C., sob as lentes de Sinsley

Voltando aos EUA, depois da experiência em Cuba, comecei a trabalhar num coletivo de cineastas de esquerda (Newsreel) com colegas que conheci em Cuba. Fazíamos e distribuíamos filmes políticos americanos, tanto quanto filmes cubanos, vietnamitas, chineses, angolanos e, ainda, filmes feitos pelos sindicatos americanos.

A maior manifestação antiguerra feita por veteranos durante a Guerra do Vietnã foi “Dewey Canyon III”, que aconteceu em Washington D.C. no mês de abril de 1971. Eu trabalhei como um dos fotógrafos do evento. A manifestação começou na madrugada de 19 de abril, com mais de 900 veteranos e muitos Gold Star Parents (pais que perderam filhos na Guerra do Vietnã), que marcharam até o Cemitério Nacional de Arlington (Arlington National Cemetery) para prestar homenagem aos companheiros que morreram no campo de batalha.

 

Sabemos hoje do poderio militar dos Estados Unidos. Ainda que os dados não sejam sempre públicos, fala-se em quase mil bases militares espalhadas por todo o mundo. São sete as frotas navais, cada uma com uma finalidade – a 4ª Frota, inclusive, foi reativada para patrulhar o subcontinente sul-americano, em especial o Brasil de Lula, com a descoberta do pré-sal. Fale-nos sobre esse poderio e como está a luta contra a corrida armamentista no mundo hoje.

E difícil responder a essa pergunta sem falar do Military Industrial Complex ou complexo industrial militar. Quando Eisenhower saiu da presidência – lembre-se de que Eisenhower não foi um anjo –, ele iniciou as tentativas de assassinato a Fidel; foi responsável pela morte de Patrice Lumumba, no Congo; derrubou o governo da Guatemala; derrubou o primeiro-ministro eleito democraticamente no Irã.

Em seu último discurso televisionado ao povo americano, o presidente Eisenhower disse que a maior ameaça à democracia americana não era o comunismo, mas sim a ligação entre a indústria armamentista e o Pentágono. Os EUA gastam mais em armamentos do que os outros sete países mais ricos do mundo gastam juntos. Com o novo presidente fascista, ninguém sabe o que vai acontecer.

Steve Sinsley posa junto a cubanos, durante sua estada na grande ilha, quando trabalhou no corte de cana plantada na região

Desde o final da 1ª Grande Guerra, o imperialismo dividiu o povo e a nação árabe em 21 países (além da Palestina, que não consta dos mapas e hoje se chama Israel, e da República de Sarauí). Nunca houve governo dos Estados Unidos, desde 1947, cuja essência da sua política externa não fosse a de proteger e dar segurança ao estado sionista de Israel, em detrimento do povo árabe-palestino. Qual a sua visão desse conflito entre árabes e israelenses? Você enxerga alguma luz no final do túnel?

Luz no final do túnel? Eu só vejo um trem no final do túnel. Segundo alguns whistleblowers na CIA, Israel tem por volta de 400 bombas atômicas. Lejeune, como você bem sabe, eu sou um judeu antissionista que apoia decisivamente a causa palestina.

Temos dois tipos de sionistas aqui nos EUA. Judeus sionistas conservadores e “sionistas cristãos” (fundamentalistas/crentes). A meta dos sionistas cristãos é acelerar o fim do mundo. Eles acreditam que se eles mandarem armas e dinheiro suficientes para Israel, isso vai iniciar uma guerra em que Jesus Cristo vai voltar à terra e os cristãos vão ascender ao paraíso. Os judeus também, desde que eles se convertam ao cristianismo. Sobre os judeus sionistas, ah… esses não têm jeito.

 

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Sociologia Ed. 70

Adaptado do texto “Uma nova Guerra Fria”

*Lejeune Mirhan é escritor, analista internacional, professor universitário (aposentado) e sociólogo. Fez mestrado em Filosofia pela PUC e especialização em Política Internacional pela ESP. Lecionou Sociologia, Ciência Política e Métodos e Técnicas de Pesquisa na Universidade Metodista de Piracicaba. É autor e/ou organizador de nove livros nas áreas de Sociologia e de Política Internacional. Presidiu o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (2007-2010) e a Federação Nacional dos Sociólogos (1996-2002). Como estudioso, pesquisador e sindicalista, visitou 20 países, em especial Palestina, Síria, Líbano, Jordânia e Emirados Árabes Unidos. E-mail: lejeunemgxc@uol.com.br