Uma república lacerdista

Jornalista, escritor, deputado e governador da Guanabara, Carlos Lacerda foi um polemista de direita cujas estratégias são até hoje utilizadas pela oposição contra os governos progressistas no Brasil, embora seu nome seja raramente citado

Por Yago Junho* | Fotos: Commons Wikimedia | Adaptação web Caroline Svitras

Caros leitores, o Brasil está um barril de pólvora! A radicalização crescente de nossa política pode ter um lado interessante: tirar as ideologias e os eleitores da letargia em que se encontravam. Que a direita pôs suas manguinhas de fora não há como negar. Houve um tempo que ser de direita não pegava bem. Mesmo que o sujeito fosse conservador falava que era, pelo menos, socialdemocrata só para sair com uma cara de descolado na fita. Agora não, a roda da história girou e o que era de vidro não se quebrou, serviu de superfície para os adesivos do reacionarismo.

 

Alguns autores foram alçados a gurus da brazilian new right: Edmund Burke,  Mises, Friedrich Hayek, Frédéric Bastiat, Olavo de Carvalho, Roberto Campos e Nelson Rodrigues, para citar apenas alguns. Dando uma sapeada em nossa imprensa escrita e televisiva, analisando os discursos de oposição ao governo federal, lemos e ouvimos as seguintes expressões: mar de lama, República Sindicalista (ou bolivarianismo), comunistas, ladrões, corrupção, privatização da Petrobras, o perigo da cubanização do Brasil, Foro de São Paulo. A direita que sempre acusou a esquerda de estar parada nos anos de 1950 e 1960 revive fantasmas dessa mesma época. Usa consciente ou inconscientemente como bandeiras de combate ao que chama de governo vermelho palavras de ordem muito caras à União Democrática Nacional (UDN). E se fosse para escolher o herói desse ressurgimento direitista, o grande modelo, a inspiração seria Carlos Lacerda. O Brasil tem se tornado ao longo dos últimos anos uma República lacerdista.

 

O que é mais estranho em tudo isso é que Carlos Lacerda quase nunca é citado nos textos dos intelectuais tradicionais das multinacionais. Embora usem e abusem dos métodos lacerdistas tanto políticos como jornalísticos, Lacerda é escamoteado, como se sua influência fosse motivo de opróbrio se escancarada. A estratégia de divulgação de escândalos, a incoerência no pensamento, a virulência no ataque, a obsessão com a corrupção são marcas características de um homem que foi um dos principais protagonistas políticos entre o final dos anos de 1940 e o governo do general Castello Branco. Em 2014, ano do centenário de nascimento de Carlos Lacerda, com exceção de pouquíssimas lembranças, seu legado, podemos dizer, passou em brancas nuvens. É um mistério que o político que, post mortem, dita a política no Brasil não tenha sido cantado em prosa, verso e dólar.

 

Um homem polêmico

Jornalista, polemista, escritor, dramaturgo, tradutor, deputado federal e governador da Guanabara, Carlos Lacerda foi um homem que se notabilizou como um destruidor de políticos. Temperamental, era capaz das maiores fúrias com quem trabalhava para ele, mas de um charme quase irresistível quando estava entre os amigos. Com uma memória prodigiosa, com a escrita iracunda e com sua oratória fulminante marcou seu nome com letras garrafais na história do Brasil. A simples referência ao seu nome é capaz de despertar as maiores paixões e os maiores ódios. Não há possibilidade de entender a política brasileira hoje sem conhecer quem foi e o que fez Carlos Frederico Werneck de Lacerda.

 

Carlos Lacerda nasceu em 30 de abril de 1914, filho de Maurício Lacerda e Olga Caminhoá Lacerda. Passou parte de sua infância na Fazenda Forquilha, casa de seu avô Sebastião de Lacerda, que fora nomeado pelo presidente Hermes da Fonseca como ministro da Justiça do Supremo Tribunal Federal. Mais tarde vai reconhecer a grande influência que o doutor Sebastião e sua biblioteca exerceram sobre ele. Com o pai, Lacerda sempre teve problemas de relacionamento. Maurício era um agitador político ligado ao movimento dos trabalhadores. Um homem que se dedicava inteiramente à militância, mas ausente do âmbito familiar. Isso levou à separação com Olga, o que afetou sobremaneira o jovem Lacerda que rompeu definitivamente com o pai quando descobriu que Maurício tinha outra família.

 

A relação com o pai, mesmo conflituosa, não impediu que Lacerda absorvesse inúmeras características paternas. O gosto pela política, a grande dedicação por uma causa abraçada, o jornalismo e a oratória. Lendo os livros de Lacerda, vemos nas entrelinhas esse reconhecimento, mas a revolta com o pai o impediu de prestar as devidas reverências. Esse é um assunto obscuro nas biografias de Lacerda e um tema que merece um estudo mais profundo: em que medida essa relação com o pai foi determinante no comportamento político de Carlos Lacerda?

 

Precedentes do golpe militar

 

Lacerda foi um menino normal. É uma mistificação pintá-lo como gênio logo na infância por ter lido aos 12 anos de idade o ABC do comunismo. Mas, em razão da atmosfera familiar em que vivia, logo se encantou pela política. Matava aulas no Colégio Pio Americano para assistir às reuniões da Câmara Municipal do Rio de Janeiro e, jovem ainda, entra no mundo do jornalismo no Diário de Notícias. Era responsável por pesquisar material para a coluna diária sobre educação que Cecília Meireles tinha naquele periódico. Em 1931, assina seu primeiro artigo: uma denúncia sobre o tratamento que o juiz de menores dava às crianças sob sua responsabilidade.

 

Na Faculdade de Direito desenvolveu seus primeiros trabalhos de militância política. Fez parte do diretório acadêmico, estabeleceu contatos com membros do Partido Comunista, fez pressão contra a contratação de Alceu Amoroso Lima, que os estudantes julgavam de direita, e começou a colaborar em revistas – e tem início o seu propalado poder oratório. A vida se dividia entre as aulas, as atividades de jornalista e escritor e a militância política. Uma das primeiras tarefas que o Partido Comunista lhe deu foi pichar a estátua de Pedro Álvares Cabral com os dizeres: “Abaixo o Imperialismo, a Guerra e o Fascismo”. É, no mínimo, engraçado imaginar Carlos Lacerda perambulando pela cidade do Rio de Janeiro, com a missão de gravar em seus monumentos inscrições comunistas.

 

O filósofo conservador britânico Edmund Burke (1729-1797) é uma das influências da direita brasileira, embora seja mais citado do que lido

Na verdade Carlos Lacerda nunca foi membro do Partido Comunista. Foi sim, para usar o linguajar do movimento, franja do Partidão. Não que Lacerda nunca tenha tentado entrar. Em uma das vezes em que tentou entrar, o PCB ordenou que escrevesse um artigo tecendo uma crítica fulminante ao seu pai – Maurício Lacerda. Quando estava batendo o texto, a máquina de escrever estragou e ele foi pedir a da irmã emprestada. A irmã quis saber o porquê ele queria sua máquina emprestada, assim que ele contou a irmã não emprestou, os dois tiveram uma briga enorme e ele percebeu que ela tinha razão. Não escreveu o artigo e não entrou para o partido. Outra participação curiosa de Lacerda nas hostes esquerdistas foi quando em nome da juventude proferiu um discurso na reunião de fundação da Aliança Nacional Libertadora, em 1935, onde ele fez a proposta de nomear Luís Carlos Prestes como presidente de honra da organização.

 

A sua curta passagem pela esquerda terminou com um acontecimento inusitado. Ele foi expulso do Partido Comunista sem nunca ter pertencido. No fim da década de 1930 ele colaborava para O Observador Econômico e Financeiro, órgão ligado ao governo Vargas. O diretor da revista comunicou a Lacerda que o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) gostaria de fazer um artigo sobre o desenvolvimento histórico do PCB. Carlos Lacerda entrou em contato com o partido e ficou definido que ele iria escrever a matéria. Quando o artigo saiu, o PCB ficou revoltado com o artigo e o expulsa. Ainda tentou por quatro anos se reconciliar com o partido sem sucesso.

 

No início de 1940 começa um período difícil para a imprensa com o recrudescimento do Estado Novo. Jornais são fechados e vários jornalistas ficam desempregados. Em 1942, Carlos Lacerda consegue emprego em São Paulo e sai do Rio de Janeiro. Em São Paulo estreita contato com a família Mesquita frequentando a Livraria Jaraguá, de propriedade de Alfredo Mesquita. Além disso, Carlos Lacerda trabalha como tradutor de uma agência norte-americana que fornecia textos sobre a Segunda Guerra Mundial. É em São Paulo que se converte definitivamente à direita. Participa ativamente do Congresso dos Escritores exigindo democracia no país e realiza a famosa entrevista com José Américo de Faria para o Correio da Manhã, onde o escritor desce o sarrafo na ditadura Vargas e a historiografia aponta esse momento como crucial para a abertura do Estado Novo.

Conservadorismo no Brasil

 

Com o processo de redemocratização, novos partidos surgem no cenário político brasileiro. O Partido Social Democrático (PSD), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), ambos vinculados ao legado getulista, e a União Democrática Nacional (UDN), que congregava as forças da sociedade contrárias ao Estado Novo. Lacerda tem uma participação importante na articulação e na fundação da UDN, tornando-se o principal porta-voz do partido ao longo do seu período de funcionamento. A UDN ideologicamente, embora congregasse algumas correntes de esquerda, nasceu com o perfume do liberalismo. Partido ligado ao grande capital e aos interesses norte-americanos abominava o nacionalismo de tão profundas raízes até então no Brasil.

 

O brigadeiro Eduardo Gomes (1896-1981) foi o candidato à Presidência da República em 1945, pela União Democrática Nacional (UDN)

Para as eleições de 1945, o PSD lançou o general Eurico Gaspar Dutra, a UDN apresentou como candidato o brigadeiro Eduardo Gomes e o PCB de volta à legalidade trouxe como candidato Iedo Fiúza. É justamente nessa eleição que começa o estilo jornalístico tão peculiar de Carlos Lacerda. Escreveu para o Correio da Manhã uma série de reportagens denunciando casos de malversação de dinheiro por parte de Fiúza. Foi uma perseguição implacável, diariamente um canhão era disparado contra o candidato. Claro que ele não teria nenhuma chance de vitória eleitoral, mas os artigos de Lacerda causaram profundos arranhões na imagem do dirigente esquerdista. Após as eleições Carlos Lacerda passa a cobrir os trabalhos da Assembleia Legislativa em sua coluna chamada “Tribuna da Imprensa”. Lacerda não perdoava os deputados que julgava os responsáveis pela derrota do brigadeiro Eduardo Gomes. Os artigos eram tão violentos que o jornalista passou a angariar fortíssimas inimizades e a fama de destruidor de políticos.

 

Logo sua pena raivosa iria lhe causar problemas. Saiu do Correio da Manhã em razão de censura em relação aos seus textos. Como nenhum jornal quis lhe dar emprego, alguns amigos o incentivam a fundar seu próprio jornal. Em 1949 funda o jornal Tribuna da Imprensa com o objetivo de combater a corrupção no país e disseminar valores cristãos. Carlos Lacerda havia se convertido ao catolicismo em 1947. Nas páginas da Tribuna da Imprensa, desenvolve uma campanha pela moralização política do Brasil. Aliás, é uma característica da direita quando fica muito tempo na oposição em nosso país acusar os governos de corrupção e pregar a moralidade. Vide o exemplo da Veja que aprendeu a lição com Carlos Lacerda.

 

A face golpista

Entrando nos anos 50, Carlos Lacerda revela sua outra face: a face de golpista. Quando Getúlio Vargas anuncia sua candidatura, ele dispara uma de suas mais famosas máximas: “O senhor Getúlio não deve ser candidato, se candidato não deve ser eleito, se eleito não pode governar”. Para desespero de Lacerda, Getúlio foi eleito. O jornal Tribuna da Imprensa não deu trégua ao governo. A principal acusação: corrupto. Lacerda chegou ao paroxismo quando publicou em primeira página a famosa Carta Brandi. Essa teria sido escrita, na versão lacerdista, pelo deputado argentino Antonio Jesus Brandi e endereçada a Jango, e que provaria ligações entre Getúlio e Jango com Perón para a implantação de uma República Sindicalista no Brasil. O presidente Perón era o Hugo Chávez (1954-2013) da época e peronismo equivalia na fantasmagoria reacionária ao que o bolivarianismo representa hoje para a elite conservadora da América do Sul. Não teve o cuidado de verificar a autenticidade da carta, inclusive amigos do círculo íntimo de Lacerda, como Afonso Arinos, o alertaram para que tivesse cuidado na divulgação de algo sem comprovação. A carta era falsa e Lacerda jamais se conformou com esse fato. Debalde tentou durante muito tempo provar a autenticidade da carta.

 

Carlos Lacerda queria encontrar alguma forma para provocar o impeachment de Getúlio Vargas. Inclusive com essas denúncias vazias sobre a intenção da formação de uma aliança ABC. Esta aliança reuniria Argentina, Brasil e Chile, para a criação de um bloco econômico e político com o objetivo de combater a hegemonia norte-americana no continente. Isso na visão distorcida do jornalista equivalia a dizer que o Brasil se afastaria dos Estados Unidos e se aproximaria da União Soviética, e que a política interna brasileira seria determinada por agentes externos. Guardadas as devidas diferenças, a oposição no Brasil senta o sarrafo no Mercosul dizendo que o Brasil tem que se aliar com as locomotivas econômicas do mundo (leia-se EUA). Outra crítica é que as decisões do governo brasileiro são geradas no Foro de São Paulo, isso configuraria uma violação à Constituição do país, pois o governo estaria desrespeitando a nossa soberania, já que o Foro é uma reunião que congrega representantes de várias nações.

 

As críticas feitas contra o Mercosul (com seus líderes reunidos na foto) remetem ao debate sobre a criação da aliança ABC (Argentina, Brasil e Chile) nos anos 1950 | Foto: Agência brasil/Roberto Stuckert Filho/PR

 

Como Lacerda tinha muitos desafetos e, aquela altura, era a principal e a mais inflamada voz de oposição ao governo Vargas, temia-se que ele pudesse sofrer uma tentativa de assassinato. Aliás, por duas vezes capangas foram contratados para dar uma surra em Lacerda. E essa tentativa aconteceu no dia 5 de agosto de 1954. Lacerda era escoltado o dia todo por homens das Forças Armadas. Naquele dia quem o acompanhava era o major da Aeronáutica, Rubens Vaz. Assim que desceu do carro, quando ia abrir a porta do prédio em que morava, percebeu que tinha esquecido a chave, pediu ao seu filho Sérgio ir até outra entrada do edifício e pegar a chave com o porteiro. Nesse momento um homem veio com uma arma para matar Lacerda, o major Rubens Vaz interveio e levou dois tiros. Morreu a caminho do hospital. Lacerda levou um tiro no pé e do hospital mesmo acusa Vargas como o responsável pelo ocorrido.

 

Quando se descobriu que o mandante do crime tinha sido Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas, Lacerda intensifica os ataques ao governo. Assis Chateaubriand, que era o todo-poderoso empresário das comunicações no Brasil, abre sua rede de televisão para o teatro lacerdista. Foi a primeira vez que a televisão serviu de meio de propaganda ideológica no Brasil. Vociferando impropérios contra o Palácio do Catete, sempre com um quadro-negro atrás, o jornalista foi incitando o povo contra Getúlio. Até que no dia 24 de agosto, com o agravamento da crise política, ocorre o suicídio. Carlos Lacerda teve que se esconder, pois a reação da população contra os opositores de Vargas foi violentíssima.

 

Carlos Lacerda, o controverso jornalista e político que sacudiu o Brasil durante vários anos. Era inimigo declarado de Getúlio Vargas | Foto: Reprodução Youtube

 

Com Café Filho na Presidência, Lacerda propõe o adiamento das eleições, pois achava que, com o clima de comoção em torno do suicídio, candidatos vinculados ao legado getulista seriam facilmente eleitos. O PSD tinha lançado Juscelino Kubitschek à Presidência e feito aliança com o PTB, que lançou João Goulart como vice-presidente. A UDN veio novamente com Eduardo Gomes e para completar a dobradinha, de vice, foi escolhido Milton Campos. Perderam! A UDN, inconformada, começou as articulações com o presidente e os militares para impedir a posse de JK, com a alegação absurda de que o mesmo tinha sido eleito com os votos dos comunistas. Como o PCB estava na ilegalidade esses votos não deveriam ser computados. O que a UDN queria era instaurar no país um regime de exceção até que “reformas democráticas” fossem implantadas. Trocando em miúdos: Lacerda queria que se encontrasse um mecanismo de eliminar o PTB e setores do PSD do cenário político. Democracia de fato, na visão dele, só aconteceria quando candidatos de direita pudessem participar dos pleitos. Mais um plágio da oposição atual aqui no Brasil.

 

Mas um acontecimento iria frustrá-lo mais uma vez. Café Filho fica doente, tem que ser afastado e em seu lugar assume Carlos Luz, desafeto mineiro de JK. Carlos Luz sinaliza que não daria posse aos eleitos, então o ministro da Guerra Teixeira Lott destituiu Carlos Luz, impediu que Café Filho voltasse à Presidência depois de sua recuperação e só permitiu que Nereu Ramos assumisse o governo com o compromisso de dar posse aos eleitos. Mais uma vez a tentativa de golpe da UDN falhara. Lacerda, depois desse episódio, pede asilo na embaixada de Cuba e depois passa um tempo nos Estados Unidos. Esse autoexílio fez com que recaísse sobre ele a pecha de covarde. Ele sempre alegou que pela primeira vez na vida teve medo de morrer, pois voltariam ao poder pessoas ligadíssimas ao ex-presidente Getúlio Vargas e que teriam sido os planejadores do atentado de 1954.

 

Precisamos falar sobre o imperialismo

 

Na mesma eleição que Juscelino e Jango foram eleitos, Carlos Lacerda também foi vitorioso na disputa para deputado federal. Na Câmara dos Deputados não faltaram polêmicas. Lendo os seus discursos parlamentares fica claro que o alvo preferido dos ataques de Lacerda era o ministro Teixeira Lott. Lacerda não o perdoava por ter dado o golpe que garantiu a posse de JK. Em relação ao presidente JK o deputado udenista dizia que era incompetente, corrupto, inepto, megalomaníaco e que só gostava de dançar. Nesse período teve uma atuação destacada como orador, possuía raciocínio rapidíssimo nos debates, e, justiça seja feita, com todos os problemas que a lei tinha, ele resgatou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação que estava engavetada desde o governo Dutra e a colocou em discussão. E como uma confusão não poderia faltar em se tratando de Carlos Lacerda, foi aberto contra ele um processo de cassação de seu mandato. Lacerda decodificou mensagens secretas do Itamaraty e publicou no seu jornal. Foi acusado de ter colocado a segurança nacional em risco, que aquela atitude representava uma traição ao país. Lacerda fez sua própria defesa e, usando o argumento da imunidade parlamentar, tão cara aos nossos nobres representantes, foi absolvido, e o processo contra ele, arquivado.

 

Protagonista político

Em 1960, Carlos Lacerda torna-se governador do Estado da Guanabara. É bom frisar que sua eleição só foi possível em razão da candidatura de Tenório Cavalcanti, que dividiu o voto das camadas mais baixas da população. Mesmo assim, foi pequena a margem de votos com que ganhou. Como governador realizou obras de infraestrutura, abriu túneis, cuidou do paisagismo da cidade. Foi um governador eficaz, saiu do governo com fama de trabalhador e intransigente com a corrupção. Para as eleições presidenciais fez o possível e o impossível para que a UDN apoiasse Jânio Quadros, abrindo mão de lançar uma candidatura própria. Como Lacerda era um homem pragmático, caminhava ao sabor dos ventos de seus interesses, viu em Jânio a possibilidade de seu partido chegar ao poder. Dado o caráter popular de Jânio, Lacerda percebeu que a eleição estaria ganha.

 

O presidente Jânio Quadros causou polêmica ao condecorar o revolucionário Che Guevara. Militares e setores conservadores ficaram irritados

A relação entre os dois sempre foi conflituosa. Carlos Lacerda, na verdade, achava Jânio um lunático. As rusgas começaram a se intensificar quando Jânio começou sua política externa independente e teve a ousadia de condecorar com a Ordem do Cruzeiro do Sul o revolucionário Ernesto Che Guevara. No mesmo dia, na sede do governo da Guanabara, Lacerda homenageou dissidentes do regime cubano implantado por Fidel Castro. Mas a pá de cal na relação foi após uma visita que fez a Jânio em Brasília, a convite do próprio presidente, Lacerda vai à televisão e denuncia o que, na sua visão, seria uma tentativa de golpe que Jânio Quadros estava tramando. Esse episódio foi o estopim para que na manhã de 24 de agosto de 1961, após participar de uma parada militar, o presidente escrevesse seu bilhete de renúncia.

 

Assim que Jânio Quadros renuncia, e com o veto dos ministros militares Odylio Dennys, Silvio Heck e Grün Moss à volta de João Goulart, vice-presidente eleito, que estava em uma missão diplomática fora do país, Carlos Lacerda no primeiro momento defende a posse de Jango. Entretanto, logo é convencido de que o líder trabalhista não deveria ser empossado. Fazendo coro com o movimento golpista, Lacerda usa as velhas retóricas tão repisadas desde os tempos de Vargas: Jango era comunista, queria implantar uma República Sindicalista nos moldes de Perón, era corrupto, ou seja, a mesma ladainha que a direita tanto gosta de papagaiar. Contudo, é pego de surpresa pelo Movimento da Legalidade criado no Rio Grande do Sul pelo governador Leonel Brizola. Lacerda chega a dizer que a Campanha da Legalidade não passou de “uma gracinha trágica”. Um detalhe interessante: ele que sempre denunciou a falta de liberdade de imprensa, que inclusive foi proibido de usar o rádio no governo JK, fechou jornais, censurou rádios e prendeu jornalistas em 1961.

 

História e luta de Che Guevara

 

Quando teve que aceitar o fato de João Goulart tomar posse, fica contra o parlamentarismo. Mas Lacerda foi contra o parlamentarismo, e inclusive no plebiscito de 1963 votou no presidencialismo, porque estava de olho na cadeira presidencial. Carlos Lacerda, em todos os seus atos após 1960, tinha um único e firme propósito: ser presidente da República. Foi um dos principais artífices do golpe militar de 1964 para fazer aquilo que Café Filho e Carlos Luz não conseguiram: extirpar do país o trabalhismo e ser candidato único à Presidência. Aplaudiu o dia 31 de março de 1964, apoiou o general Castello Branco, que tinha como missão restituir o poder aos civis depois dos expurgos dos políticos indesejáveis ao novo regime. Contudo, após o adiamento das eleições de 1965, inclusive quando tinha sido escolhido candidato da UDN à Presidência e começado a viajar pelo Brasil, percebeu que a democracia no Brasil não voltaria tão cedo. Inicia-se assim sua campanha contra o governo militar, a ponto de ter sido inclusive preso em razão de suas críticas.

 

Carlos Lacerda, o controverso jornalista e político que sacudiu o Brasil durante vários anos. Era inimigo declarado de Getúlio Vargas

Mudando completamente seu pensamento e sua forma de agir, procura Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart para a formação da Frente Ampla, movimento que reuniria as principais lideranças civis no Brasil para combater o regime militar e exigir a democratização. No manifesto lançado pelo movimento, Lacerda defende bandeiras que antes criticava: o nacionalismo, defesa da Petrobras contra os inimigos externos e tece críticas ácidas ao imperialismo. Muda de novo sua posição em razão do ostracismo político em que se encontra. Rejeitado pela esquerda e pela direita no país, busca um acordo de cúpula para voltar à cena política. De 1967 em diante abandona a política e cuida da publicação de seus livros e atividades empresariais. Morre em 21 de maio de 1977 vítima de endocardite bacteriana.

 

Durante seus anos de glória Carlos Lacerda foi o representante da burguesia multinacional e rentista. Era contra a reforma agrária, defendia a entrada de capitais estrangeiros na Petrobras e usou de meios nem sempre éticos em sua atividade jornalística. Definia-se como um democrata cristão. Combatia ideologias, pois acreditava que ideias radicais limitavam a ação dos políticos. Foi um homem de ação mais que de pensamento. Usava sua escrita como pré-condição para a intervenção na realidade. Suas ideias são uma colcha de retalhos difícil de costurar. Usou seu talento como escritor, como político e como orador para desestabilizar políticos. Notabilizou-se pela polêmica, pela ironia e pelo sarcasmo. Um homem de direita, sofisticado, culto, um excelente amigo, um patrão exigente e um governador intransigentemente contra conchavos para beneficiar companheiros. Comparando com os ícones da direita atual constatamos que até o reacionarismo decaiu de nível. O Brasil está mal de oposição.

 

*Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo e mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor de Sociologia, Antropologia e Metodologia de Pesquisa da FAI – Centro de Ensino Superior em Gestão, Tecnologia e Educação de Santa Rita do Sapucaí (MG) e autor do livro Sociologia Pau Brasil (Editora Multifoco, 2014). E-mail: yeuzebio@gmail.com.

Adaptado do texto “Brasil, uma república lacerdista”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 57