Uso de drogas no espaço público

Doutora em Antropologia Social pela Unicamp, a premiada cientista social Taniele Rui é especialista em pesquisas sobre espaço urbano, juventude e consumo de entorpecentes

Por Daniel Rodrigues Aurélio* | Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil | Adaptação web Caroline Svitras

 

As Ciências Sociais é que me despertaram para o mundo.” A cientista social e professora Taniele Cristina Rui, a entrevistada desta edição da revista Sociologia, resume o sentimento de muitos daqueles que escolhem essa carreira. Autora do livro Nas tramas do crack: etnografia da abjeção (Terceiro Nome, 2015), edição de sua tese de doutorado, vencedora do prêmio Capes de Melhor Tese de 2013, Taniele Rui é graduada em Ciências Sociais, mestre e doutora em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com pesquisas de pós-doutorado na Social Science Research Council, nos Estados Unidos (2013-2014), e no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), instituição da qual é pesquisadora.

 
Nas páginas a seguir, Taniele Rui fala sobre sua trajetória acadêmica, suas pesquisas e analisa o cenário do ensino das Ciências Sociais no Brasil. Ela aproveita para dar um conselho precioso para quem deseja fazer uma etnografia de qualidade: “Uma boa etnografia, para mim, é aquela que não tem preguiça da descrição”.

 

Para começar, conte-nos como foi o seu “despertar” para as Ciências Sociais.

Quando rememoro minha trajetória, fica cada vez mais claro pra mim que, na verdade, foi o contrário: as Ciências Sociais é que me despertaram para o mundo. Eu sou de uma família pobre, pouco escolarizada, que vive no interior de São Paulo. Fui a primeira a cursar universidade pública. Quando prestei vestibular em 2001, depois de uma frustrada reprovação no curso de Jornalismo no ano anterior, eu só optei por Ciências Sociais – vendo retrospectivamente, um pouco em função talvez do meu campo de possíveis e da minha familiaridade com Português e História –, mas não tinha ideia do que era o curso, mesmo.

 
Para ter uma ideia de como o processo foi exatamente o inverso, lhe digo que só tive exatamente a dimensão de meu lugar social, que agora conto, quando li a tese do Gabriel Feltran (que é de 2008!) sobre famílias operárias. Quando li a primeira história familiar narrada por ele, senti que ele estava formulando em palavras minha trajetória familiar (escrevi isso na resenha que produzi sobre seu livro na Revista Brasileira de Ciências Sociais). Do mesmo modo, o ano passado, quando comecei a me interessar pelo estudo das prisões provisórias me dei conta de que em 2001 passei mais de sete horas em frente à TV para me informar sobre uma grande rebelião que acontecia em vários presídios do estado de São Paulo – como a literatura sobre o tema já demonstrou, tal rebelião era uma demonstração pública do Primeiro Comando da Capital.

 

Portanto, foi o contato contínuo com as Ciências Sociais que me despertou interesse nas relações pessoais, sociais e políticas e isso se tornou meu trabalho e, por que não dizer, minha própria vida.

 

Taniele Rui | Foto: Adriano Vizoni/Folhapress

 

Grande parte de sua formação acadêmica ocorreu na Unicamp. Como é a experiência de estudar e pesquisar nessa instituição? e como é ter sido orientanda da professora Heloísa Pontes?

Quando prestei vestibular, fui aprovada nas quatro universidades públicas de São Paulo UFSCar, Unesp, Unicamp) e escolhi a Unicamp porque ela oferecia o melhor conjunto de benefícios estudantis (bolsa-trabalho, moradia, alimentação), dos quais me vali ao longo de toda a graduação, que eu concluí em 2004. Depois fiz mestrado e doutorado lá. Passei exatamente um terço da minha vida na Unicamp e agora tenho a feliz possibilidade de estar na instituição como professora do Departamento de Antropologia. À Unicamp e especialmente ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas eu devo a minha formação, a maior parte dos meus amigos e até mesmo o meu modo de pensar.

 

Estive em contato com muitas outras instituições de ensino e pesquisa nesse percurso, mas a cada vez que saí tive certeza da boa formação que obtive. Especialmente o Departamento de Antropologia era muito heterogêneo. Como tive aulas com quase todos os seus professores, também tive por consequência contato com muitas áreas na Antropologia. Para ter uma ideia, tive aulas excelentes sobre [Claude] Lévi-Strauss (1908-2009) com Mauro Almeida e Nádia Farage, passei pela aproximação entre Psicanálise e Antropologia com Amnéris Maroni e tive ótimos cursos de Teoria Antropológica com Suely Kofes, John Manuel Monteiro e Heloísa Pontes, que foi minha orientadora por quase dez anos. A nossa relação é um exemplo dessa liberdade intelectual sob a qual se deu minha formação. Heloísa e eu não partilhamos o mesmo campo de pesquisa, mas partilhamos um compromisso semelhante com o trabalho intelectual. Isso sempre nos aproximou e nos tornou, também, muito admiradoras uma da outra.

 

 

Você publicou recentemente um livro que tem recebido boas críticas, Nas tramas do crack. Como foi o processo de produção dessa obra?

Nas tramas do crack é uma versão atualizada da minha tese de doutorado, defendida em maio de 2012. O trabalho condensa pelo menos oito anos de pesquisa e convivência com pessoas em situação de rua e que usam crack nas cidades de Campinas e São Paulo. Foi um trabalho de grande fôlego, que envolveu muita pesquisa de campo, acompanhamento da produção imagética sobre o tema e, claro, muito envolvimento pessoal, intelectual e político com uma série de sujeitos e instituições também envolvidíssimos com o assunto. Acho que com esse trabalho consegui flagrar um pouco do que foram os anos de emergência do crack como uma questão pública no país. É claro que muita coisa mudou desde então, mas a gente vai aprendendo também que todo livro tem seus limites temporais.
Compreendo que o nosso trabalho, como Lévi-Strauss bem expressou na abertura de O cru e o cozido, é só colocar um problema difícil numa situação um pouco melhor do que aquela que o encontramos. Acho que a boa receptividade do trabalho tem a ver com eu ter conseguido fazer um pouco isso.

 

 

Quais são os autores que mais a influenciaram ao longo da carreira?

Leio muita coisa e não me considero seguindo uma linha teórica específica. Mas Michel Foucault (1926-1984) certamente talvez seja o autor que mais li. A partir de seus trabalhos sempre encontro inspiração para refletir sobre “verdade”, poder, práticas de normalização, regimes de visibilidade, “políticas da vida”.

 

Também me identifico com seus objetos empíricos: prisões, hospitais, loucura, sexualidade. Gosto de lê-lo para ter “insights”, mas não acho bom quando os trabalhos viram apenas uma transposição das suas ideias. Como Paul Rabinow e Nikolas Rose já alertaram (em O conceito de biopoder hoje), Foucault escreveu antes do fim da Guerra Fria, da globalização, da internet, do projeto Genoma, do aquecimento global, dos organismos geneticamente modificados, das tecnologias reprodutivas; e eu acrescentaria do crack, da militarização das cidades, do extermínio dos jovens negros que habitam as periferias globais… Isso tem que fazer alguma diferença, não tem?

 

Foto: Divulgação

 

 

Algumas de suas pesquisas versam sobre as correlações entre o espaço urbano, a juventude e o consumo de drogas. Quais os desafios dessa temática? 

Acho que nessa pergunta estão condensadas as interfaces que constituem grande parte dos meus trabalhos até agora: cidade, juventude e consumo de drogas. Em certa medida têm a ver com o início de tudo: o trabalho com crianças e adolescentes em situação de rua que consumiam drogas como maconha, cola, crack. Foi uma aproximação empírica que depois foi se desdobrando em várias pesquisas e também na minha atuação docente – por quatro anos lecionei a disciplina “Sociologia da Juventude”, no curso de especialização Psicossociologia da Juventude e Políticas Públicas da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP). Ainda que derivadas de temas candentes da Antropologia Urbana são temáticas relativamente novas e o estudo delas precisa ser ainda mais qualificado empírica e teoricamente.

 

 

Você é atualmente pesquisadora no CEBRAP. Como é a experiência de trabalhar em um centro de pesquisas tão importante para a história das Ciências Sociais e, por que não dizer, da política brasileira?

Realizo hoje minha pesquisa de pós-doutorado no Cebrap, mas comecei a frequentar o Cebrap desde muito antes, em 2008, para participar de um grupo de estudos que depois nomeamos Núcleo de Etnografias Urbanas, coordenado por Ronaldo Almeida. Nesse grupo, estão concentrados os meus grandes parceiros de trabalho: além de Ronaldo, Gabriel Feltran, Fabio Mallart, Mauricio Fiore, Paulo Malvasi e Ana Paula Galdeano. A minha experiência pelo Cebrap, portanto, é inseparável da minha experiência com esses companheiros, de modo que o Cebrap se tornou, na minha vivência, um espaço de trocas intelectuais, políticas e afetivas. Talvez tenha sido exatamente o seu objetivo ao longo de sua história e atuação.

 

Foto: www.memorial.org.br

 

Qual é a sua opinião sobre o panorama do ensino das Ciências Sociais, sobretudo da Sociologia, no Brasil?

Acho que grande parte do que fazemos como professores de Ciências Sociais é mais do que formar pesquisadores, formar pessoas que atuarão como educadores – formais ou informais – em seus trabalhos futuros. Nesse sentido, considero importantíssimo que os cursos conciliem tanto Bacharelado quanto Licenciatura e que se dê especial importância à graduação.

 

Para finalizar nossa conversa: quais dicas você daria para alguém que pretende fazer uma boa etnografia?

Como diz algo que já está virando quase uma máxima, dou uma dica simples: “ao invés de dizer, mostre”. Acho que uma boa etnografia é aquela que não se contenta em anunciar que a polícia é violenta, por exemplo, mas que mostra a polícia entrando nas casas, esparramando pertences, impondo medo, provocando o choro de uma criança, terminando o trabalho com um sorriso sádico etc. Com isso digo que uma boa etnografia, para mim, é aquela que não tem preguiça da descrição.

 

 

*Daniel Rodrigues Aurélio é mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), graduado em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, com especialização em Globalização e Cultura e em Sociopsociologia, ambas pela EPG/FESPSP. Foi editor da revista Sociologia entre 2010 e 2011 e da publicação bimestral Conhecimento Prático Filosofia de 2010 a 2014. Atualmente é sócio-diretor do estúdio criativo Barn Editorial e presta consultoria na área de Educação para as maiores editoras do Brasil. É autor, entre outros livros, de Bibliografia básica: a coleção Grandes Cientistas Sociais no contexto da expansão do ensino superior após a reforma universitária de 1968 (Luminária Academia, 2015). É membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e cursa MBA em Book Publishing pelo Instituto Singularidades/Casa Educação. E-mail: daniel@barneditorial.com

Adaptado do texto “Uma trajetória notável”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 63