Veja a resenha de “O capa-branca”

A impressionante história do funcionário do Complexo Psiquiátrico do Juquery, em São Paulo, que se tornou paciente da instituição

Por Túlio Maia Franco* | Foto: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

 

“Tem uma coisa que ninguém pode tomar de mim: minhas memórias. Acho que só a morte pode apagá-las” (p. 16). As recordações de Walter Farias, ex-funcionário que se tornou paciente do Complexo Psiquiátrico do Juquery (São Paulo), na década de 1970, em coautoria com o jornalista Daniel Navarro, ganham vida neste livro, dividido em três partes: Hospital Psiquiátrico, Manicômio Judiciário e Internação. A narrativa, cujo gênero, poderíamos dizer, é um misto entre autobiografia e relato jornalístico em profundidade, é enriquecida com a intensidade das lembranças de Walter e a exposição dolorosa dos detalhes da vida manicomial.

 

A história se desenvolve no município de Franco da Rocha, região metropolitana da cidade de São Paulo, que poderia passar despercebido se não fosse conhecido por ter abrigado um dos maiores complexos psiquiátricos do país, o do Juquery. O local com capacidade de 9 mil pacientes chegou a abrigar 16 mil pessoas, com as mais distintas perturbações e histórias de vida, ao longo dos turbulentos anos 70.

 

Aos 19 anos, Walter Farias fez parte de uma das primeiras levas de funcionários admitidos via concurso público como atendente de enfermagem no Hospital Psiquiátrico do Juquery. Era 1972. A partir daquela data passaria a vestir o jaleco branco que compõe o uniforme padrão dos trabalhadores responsáveis por cuidar/vigiar os enfermos internados no Juquery, isto é, ele se tornaria um capa-branca. É a partir desse ponto de vista que as duas primeiras partes do livro são contadas para o leitor. Ora a narrativa é preenchida de “causos” tragicômicos sobre personagens misteriosos a místicos que habitavam o hospital ou o Manicômio Judiciário – para o qual Walter seria transferido posteriormente –, ora essas narrativas dão lugar à descrição de vidas marcadas pela violência institucionalizada dos manicômios – muitos dos pacientes que estavam ali morreram como indigentes no cemitério do Juquery.

 

Pelos olhos do capa-branca conhecemos os diferentes ambientes do complexo psiquiátrico: sua arquitetura híbrida de hospital e prisão que contrastava com os belos jardins, seus diretores que por vezes se assemelhavam a coronéis, os médicos que mais pareciam burocratas, enfermeiros e auxiliares que muitas vezes se viam na condição de carcereiros. Aos pacientes restavam seus corpos nus ou vestidos com trapos; eles eram submetidos a uma intensa medicalização, aliada às mais cruéis formas de “terapias” destinadas a controlar, conter ou dopar todos aqueles sobre os quais recaía a alcunha de louco. No entanto, a narrativa de Walter e Daniel consegue captar as nuances e, ao registrar parte da vida dos pacientes e funcionários dessas instituições, preenche de carne e osso uma história sombria da saúde mental do Brasil, não nos deixando esquecê-la ou reduzi-la a uma simplicidade maquiavélica.

 

Loucura e normalidade

Ao longo da obra as divisões entre dentro e fora dos muros do manicômio, loucura e normalidade ficam cada vez mais tênues, o absurdo parece normal, “ali dentro, a gente não podia duvidar de nada” (p. 81), afirma Walter em uma das passagens do texto. Na parte dedicada à experiência do ex-funcionário no Manicômio Judiciário, parece aumentar o grau de violência e medo nas histórias contadas em pequenos capítulos, protagonizadas pelo ex-atendente de enfermagem e por todos aqueles que o cercavam. Elas se destacavam também pela grande vivacidade que demonstravam os internos, os presos do Manicômio Judiciário, os quais Walter e Daniel se dedicam a descrever. Eles se envolvem em planos de fuga, jogos de aposta, tráfico de cigarros, trocam ameaças, socos e pontapés. Walter parece mais absorto naquele ambiente, se afeta mais com aquelas histórias e chega a participar ativamente de algumas delas, como quando dedicou-se a impedir que alguns dos pacientes recém-internados fossem abusados sexualmente por um dos antigos. Desde então Walter passou a se sentir cada vez mais ameaçado dentro daquela instituição.

 

Doença mental ou exclusão?

 

É nesse ponto que tempo e memória se confundem na narrativa. A terceira parte “Internação” é dedicada ao momento em que Walter perde a capa-branca, sua identidade profissional que parecia também lhe garantir o status de são naquele lugar. Ao esgotar-se dos serviços do Manicômio Judiciário, Walter desejava ser reinserido aos quadros do Hospital Psiquiátrico na esperança de ter melhores condições de trabalho. Entretanto, a insatisfação de Walter acarretou-lhe uma série de advertências que prontamente seriam convertidas em sintomas de alguma doença mental. Antes funcionário, Walter entraria mais uma vez no Juquery, mas dessa vez rasparam-lhes os cabelos e entregaram-no o uniforme azul dos pacientes. Ao evocar sua (antiga) identidade de capa-branca, como forma de amenizar os maus-tratos que sofria e conquistar a empatia dos funcionários, sua aclamação era descreditada como loucura.

 

O livro é recomendado a todos aqueles que queiram conhecer parte de uma história muitas vezes esquecida de nosso país. A obra de Walter Farias e do jornalista Daniel Navarro se mostra mais uma peça fundamental para a rememoração de parte da história da saúde mental no Brasil. Relatos autobiográficos como esse são de fundamental importância para compreender a dimensão afetiva da história dos manicômios. Vale ressaltar que essas narrativas continuam atuais, tendo em vista que, talvez não com a mesma intensidade que antes, continuam ocorrendo abusos e formas questionáveis de “tratamento” em saúde mental nas diferentes regiões do país.

 

 

*Túlio Maia Franco é graduado em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestrando em Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É membro do Laboratório de Etnografia e Interfaces do Conhecimento (Leic/UFRJ).

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 63