Veja quem foi Arthur Bispo

A obra de Arthur Bispo do Rosario é povoada por memórias conformadas no contexto da Primeira República. Um emocionante retrato de um Brasil abolicionista, de catolicismo rústico e de festividades folclóricas

Por  Solange de Oliveira* e Prof. Dr. Waldenyr Caldas** | Foto: Galeria Brasil Fashion Designers | Adaptação web Caroline Svitras

Arthur Bispo do Rosario, sergipano de Japaratuba, nasceu por volta de 1909. A data imprecisa de nascimento conflita os registros da Light, como 1911, com os da Marinha de Guerra, como 1909, ambas instituições onde Bispo trabalhou. O nascimento se avizinha da abolição da escravatura, e não é difícil imaginar como eram percebidos os “novos cidadãos”, negros, recém-libertos e pobres do começo do século XIX.

 

Japaratuba mantinha-se alheia, suspensa num tempo antigo. A modernidade não a havia alcançado. Permanecia em total descompasso. A pequena cidade formou-se com vários engenhos no entorno da Missão, delineada pela tradição religiosa. Em determinado período, um intenso fluxo de escravos chegou a somar a maioria da população. Os aspectos culturais envolvem, além da religiosidade e dos recém-libertos, as festividades folclóricas (religiosas e pagãs) e o artesanato local.

 

Nesse panorama de quilombolas, festas religiosas e tradições artesanais, sem data precisa, nasce Bispo do Rosario.
Em 1925, transfere-se para a capital, Rio de Janeiro. Trabalha como grumete na Marinha de Guerra e também na Companhia de Energia Elétrica Light, além de desenvolver atividades como pugilista, serviçal e guarda-costas. Alguns anos após, às vésperas do Natal, Bispo é encontrado vagando pelas ruas em um surto psicótico, anunciando-se “Mensageiro da Passagem”. Pouco se sabe sobre o passado de Bispo antes do surto, e o que o levou a esse quadro e à retenção na Colônia Juliano Moreira, onde, por 50 anos, produziu abundantemente sua arte.

 

A exemplo de sua origem sergipana, seu trabalho é banhado de religiosidade. Toda a formação sociocultural sergipana teve a religião como paradigma. Sobretudo a católica, que dominou hegemônica em vários âmbitos: na educação, na cultura e até mesmo na política (Diniz et al., 1991). A religiosidade reinterpretada transcendeu as fronteiras entre ritos e crenças e conformou-se em um catolicismo rústico de beatos e milagreiros, confluente com os rituais africanos e crenças indígenas. O misticismo apresenta-se como alternativa última de sobrevivência, num meio onde indivíduos marginalizados contavam somente com o auxílio divino.

 

A condição emocional e psicológica de Bispo desafia os punhos de pugilista a destecer, reconstruir e rebordar delicadamente os uniformes e também a coletar restos e sobras do mundo para sua transformação em artefatos a serviço do divino.

 

No entanto nunca se pretendeu artista. Era apenas um “Prisioneiro de sua Missão”. Sua obra segue o roteiro de um rito de passagem, de uma mitologia pessoal e da reconstrução do mundo a partir de uma normativa que tomou para si.

 

Bispo passava longos períodos em reclusão. Uma dessas fases foi quando, por anos, se recusou sistematicamente a sair de seu quarto-cela. Cultivava o hábito de jejuar. O que, aliás, o levou à extrema fragilidade física. Aparentemente, não era inclinado às paixões e à sexualidade (Hidalgo, 1996). A única exceção foi quando “caiu de amores” por Rosangela Maria, estagiária que dele cuidou por um curto período, causando-lhe efeito devastador. Fora isso, conduzia a vida totalmente voltado à espiritualidade e seu trabalho é coerente com sua vida íntima e com sua retórica ético-religiosa.

 

Bispo experimentou o abandono em várias ocasiões. Não só por Rosangela Maria, “diretora de tudo que eu tenho”, como dizia, mas também por sua família. Só mesmo os Leone, para quem trabalhou, o reclamaram na Colônia. Deu entrada como indigente.

 

A obra

O acervo de Bispo é paradoxal, assim como o homem. Vida e obra parecem cumprir um mesmo roteiro de constantes mistérios, fatos não apurados e desígnios divinos.

 

O poder da magia e o domínio do ambiente acompanharam o homem desde os primórdios (Fischer, 1973). Signos, palavras e imagens constituíam um repertório que, através do poder mágico e infinito da linguagem, viabilizava o controle sobre o entorno. A história está repleta de obras de caráter dominatório, como as pinturas rupestres, por exemplo. Elas expressavam os temores e a incapacidade de intervenção em eventos da natureza e o recorrente apelo pelo auxílio do mundo místico e sobrenatural.

 

A produção de Bispo, por sua escolha e ordenação das coisas, segue um roteiro semelhante. E com que soltura Bispo lança mão desses objetos inusitados e banais e os reconstrói, revocacionando-os a um contexto outro. Os artefatos que confeccionou, com forte carga religiosa, apresentam-se profusos e pressupõem possibilidades (materiais) que não eram vivenciadas por seu protagonista, um autêntico excluído — negro, nordestino, com pouco estudo e um quadro de esquizofrenia paranoide diagnosticada.

 

Os territórios indígenas

 

A abundância desses elementos contrapõe o vazio de valores e a derrocada dos ideais cristãos europeus. Os defensores das correntes filosóficas e artísticas da modernidade reuniam-se para transgredir a ordem criticando-a, mas compartilhavam esse vazio.

 

Ainda que Bispo categorize um “mundo editado” e organizado em obediência às leis de Deus, o espaço plástico faz coabitar o sacro e o profano: um inventário de nomes (e faixas!) de misses, vasos sanitários, sapatos, canecas, enfim, coisas. Ao transportá-los de seu espaço original, interrompe seu movimento “natural” e perverte a ordem aparentemente lógica. Supera, transgride e reinventa as fronteiras simbólicas dos objetos cotidianos, destituindo-os de sua identidade, sacralizando-os.

 

A passagem pela Marinha de Guerra foi relevante. Esse imaginário foi recontextualizado sob a religiosidade e a experiência como interno. Foi impulsionada pela ânsia de traçado de uma mitologia pessoal nos tecidos das assemblages, túnicas, fardas e até mesmo na desconstrução dos uniformes da Colônia Juliano Moreira. Bispo costurou e bordou sua história, sua dor, suas crenças e, assim, nos contou sua trajetória — a seu próprio modo — com uma força de verdade emocionante.

 

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* Solange de Oliveira, mestre em Têxtil e Moda pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo

**Prof. Dr. Waldenyr Caldas, Professor titular da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo