História e luta de Che Guevara

Há quem ache Che Guevara um revolucionário; outros, um transgressor banal; e há ainda os que o idolatram como herói. Sua história se assemelha mais a um filme de ação do que a uma trajetória de vida

Por Giovanna Sapienza | Adaptação web Caroline Svitras

 

 

Seres humanos como Che Guevara nascem com um ideal, perseguem-no até o fi m e buscam a melhor maneira de realizá-lo. Ambição, fraternidade, espírito de coletividade, não importa o nome que se dê a essa trajetória de vitórias.

 

 

Criação e formação

Ernesto Rafael Guevara de La Serna nasceu em 14 de junho de 1928 na cidade de Rosário, Argentina. Ainda pequeno, sua família mudou-se para o campo, em uma região próxima à cidade de Córdoba, devido ao problema de asma que desenvolvera. Ao longo de sua vida, Che Guevara sempre se dedicou aos estudos e à leitura, hábito que aprendeu desde cedo com seus pais, já se aprofundando nas teorias socialistas e em livros de autores como Marx, Engels e Lênin. Sua mãe, Célia de La Serna y Llosa, descendia do último vice-rei do Peru, família de origem aristocrática e dona de muitos lotes de terras. Já seu pai, Ernesto Lynch, era estudante de arquitetura. Começou a trabalhar com 14 anos, sem largar seus estudos. Sua adolescência é fortemente marcada pela Guerra Civil Espanhola e, logo depois, pela Segunda Guerra Mundial, época em que seu pai forma uma organização antifascista, a “Ação Argentina”, na qual inscreve seu filho. No colégio, destaca-se por ser um ótimo aluno em Ciências Humanas, como Literatura e Filosofia, e também exímio jogador de xadrez, brilhando nos tabuleiros da Olimpíada Universitária de 1948. Em 1946, conclui seus estudos, partindo com a família para Buenos Aires. Escolhe como graduação a Medicina, e com 18 anos alista-se no serviço militar obrigatório, sendo dispensado por seu problema de asma, fato considerado positivo, já que sua família era antiperonista. Em 1951 começa uma viagem de motocicleta com seu amigo Alberto Granado, que marcaria sua vida para sempre. Durante oito meses, os dois amigos percorreram cinco países da América Latina, visitando regiões carentes como, por exemplo, minas de cobre, povoados indígenas e leprosários. Nessa viagem, Che conhece a real situação política, social e econômica dos países e regiões vizinhas, marcando definitivamente sua ruptura  com todos os laços nacionais. Para pagar as despesas da viagem, trabalharam como carregadores, lavadores de pratos, marinheiros e médicos. Ao retornar para casa, escreve em seu “Diário de Viagem” – que deu origem ao livro publicado em 1970 Já não sou mais o mesmo. Nesse diário, que gerou um grande boom editorial, podemos notar sua crescente politização e o choque que lhe provocaram a pobreza, a injustiça e a arbitrariedade encontradas pelo caminho. Decide voltar a Buenos Aires em agosto de 1952 para concluir seus estudos, formando-se em Medicina pela Universidade Nacional de Buenos Aires, posteriormente se especializando com pós-doutorado em alergia.

 

 

Ainda haverá revoluções?

 

 

Em busca de seus ideiais

Um mês após a conclusão de seus estudos na universidade, Che Guevara viaja para países como Bolívia, Peru, Panamá, Colômbia, Equador, Costa Rica, El Salvador e Guatemala na companhia de outro amigo, Calica Ferre. Ele vai trabalhar nessas regiões com o objetivo de achar a cura para a sua doença, a asma. Na Bolívia, reencontra o amigo Granado e é apresentado ao advogado, também argentino, Ricardo Rojo, refugiado naquele país por sua atividade política antiperonista. Rojo lhe propõe que vá com ele a Guatemala lutar em conjunto com a Revolução Social. Durante as cinco semanas em que ficou em La Paz, Che estuda os intentos de reforma agrária e vê o país viver seu primeiro ano do governo reformista de paz. Segundo os biógrafos, esse tempo é considerado vital para o amadurecimento do revolucionário, pois é por meio desses estudos que ele fixa seu direcionamento idealista. Em 1953, desembarca na Guatemala com Rojo e o dr. Eduardo Garcia, também exilado argentino. Juntos, buscavam formar um grupo armado de resistência contra a invasão norte-americana. Ao passar pela Costa Rica, onde faz contatos políticos, Che conhece em San José dois cubanos exilados que haviam escapado da célebre tentativa de tomada do Quartel Moncada, em 26 de julho de 1953, Calixto García e Severino Rossel. Forte admirador do idealismo da União Soviética, aos 26 anos busca inscrever-se em qualquer partido comunista, de qualquer país, enquanto trabalha como médico para sindicatos guatemaltecos. Na Guatemala ainda, Ernesto Guevara conhece Hilda Gadea, marxista convicta e militante política peruana. Casa-se com ela, já grávida, em agosto de 1955 e decidem morar no México, fugidos de perseguições políticas. Lá, Che começa a ganhar a vida fotografando turistas nas ruas da capital. Posteriormente, é contratado por uma agência de notícias da Argentina para cobrir os Jogos Pan-Americanos de 1955, e em conjunto com a profissão, passa a escrever artigos científicos sobre sua especialidade: a alergia. Em junho do mesmo ano, é apresentado a Raúl Castro, líder estudantil cubano, e a seu irmão, Fidel Castro, ambos recém-saídos da prisão em Cuba, onde passaram um ano e dez meses presos na ilha de Pinos, pela invasão do Quartel Moncada.

 

 

 

Luta armada

A luta armada de Che Guevara contra o regime ditatorial de Cuba, instalado desde 1952, começa no México. Ele se inscreve em setembro, dois meses após o alistamento de Fidel. Em 1957, o grupo se instala em Sierra Maestra com o intuito de derrubar o governo de Fulgencio Batista, apoiado pelos Estados Unidos, e instaurar o ideário socialista na ilha. Che Guevara torna-se membro do governo cubano de Fidel Castro após a tomada do poder pelos revolucionários em 1959, exercendo as funções de embaixador, presidente do Banco Nacional e Ministro da Indústria. Quando Fidel tenta diminuir o domínio norte-americano sobre a economia cubana, as relações de Cuba com os EUA ficam mais tensas. Em abril de 1961, a CIA invade Cuba com um exército de mercenários e refugiados cubanos. Essa invasão à Baía dos Porcos resulta num fracasso total. O governo norte-americano tenta de todas as formas reassumir seu controle no país e até estabelece um embargo econômico na tentativa de acabar com a Revolução. Mas com a ajuda da URSS, nada disso concretizou-se, e Cuba conquistou um forte aliado para a sua proteção. A partir desses fatos, Cuba declara-se socialista e aliada da URSS, travando uma séria batalha contra a superpotência dos EUA. Em 11 de dezembro de 1964, Che Guevara discursa na ONU, onde oferece o apoio de Cuba para as lutas de libertação no terceiro mundo. Mas como bom revolucionário, não aguentava ficar trancafiado num escritório, e logo partiu para a África, onde ficou ciente do movimento de libertação nacional dos africanos, passando a lutar com eles. Ernesto Guevara realizou diversos trabalhos durante sua carreira política, dentre eles: representante cubano em viagens a países afro-asiáticos e socialistas, como Checoslováquia, URSS e China popular; presidente da delegação cubana na Conferência de Punta del Este e do seminário de planificação de Argel. Após uma estada no Congo, como instrutor das guerrilhas de Sumialot e Mulele, em setembro de 1966 Che chega à Bolívia para estabelecer um centro de treinamento de guerrilha. Esse centro havia sido criado para servir de quartel-general, tanto para revolucionários bolivianos quanto para aqueles que iriam chefiar revoluções em países vizinhos. Entretanto, alguns desentendimentos entre o Partido Comunista Boliviano e a guerrilha fizeram que a união e o trato entre eles se dissolvessem, deixando assim o Guevara e seus homens completamente isolados. Em 8 de outubro de 1967 é capturado por oficiais bolivianos patrocinados pela CIA, na selva de La Higuera (Bolívia), e no dia seguinte é executado.

 

 

Adaptado do texto “Revolucionário ou visionário?”

Revista Sociologia Conhecimento & Vida Ed. 36