Vida e teoria entrelaçadas: leia entrevista com Michael Burawoy

O cientista social britânico Michael Burawoy relata sua longa trajetória de experiências etnográ cas como operário por países da África, América, Europa, até chegar na Rússia

Por Bruno Tripode Bartaquini* | Foto: Ricardo Alcará

O britânico Michael Burawoy (1947-) é considerado por muitos como um dos maiores etnógrafos vivos. Graduou- se em Matemática, mas ouviu a vocação da Sociologia a tempo de produzir
grandes contribuições na área. Escreveu e refletiu muito sobre mundo do trabalho, tanto capitalista quanto socialista, e sobre a função da própria disciplina. O chamado lhe rendeu uma vida itinerante: da Britânia à Zâmbia; da Zâmbia aos EUA; dos EUA à Hungria e da Hungria à União Soviética, sempre guiado por sua bússola marxista a qual teima em reconstruir a cada estudo
concluído.

Já no início de sua jornada, Michael Burawoy topou uma afirmativa determinante: não se conhece a realidade do trabalho sentado em uma sala de gabinete. É preciso observar. E participar.
E escrever. E assim o fez, no setor de RH das minas de cobre, em uma indústria de peças, em uma metalúrgica e em uma fábrica de móveis. As quatro grandes experiências etnográficas de Burawoy lhe renderam reflexões profundas sobre a condição do trabalhador em mundos tão díspares. As peculiares experiências assim como seu método, que caminha do micro ao macro pelas lentes de uma teoria marxista refinada por quatro décadas, estão descritas no livro Marxismo sociológico (Alameda), cujo lançamento foi a força responsável por trazer o sociólogo novamente ao Brasil. Da sala do professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, Ruy Braga, com quem colabora frequentemente, o professor da Universidade de Berkeley falou sobre sua trajetória à revista Sociologia.

VOCÊ SE GRADUOU EM MATEMÁTICA EM CAMBRIDGE. O QUE O LEVOU A SER UM ETNÓGRAFO EM UMA MINA DE COBRE NA ZÂMBIA?
Entre 1965 e 1968, enquanto eu estava na universidade, foram anos muito emocionantes para os estudantes de todo o mundo, e estudar Matemática me parecia irrelevante naquele momento. Cambridge era um lugar muito isolado, que eu odiava tanto que escapava todo verão para viajar de carona. E em 1966 viajei de carona por toda África, do sul ao norte. Um ano depois estava na Índia estudando a questão da língua, se o idioma no ensino superior deveria ser o hindi, inglês ou o idioma regional. Eu pensava que aquilo era um problema técnico, uma questão de eficiência da língua, mas foi onde aprendi a ser um sociólogo porque a língua é uma questão política e, por causa do enorme subnacionalismo da Índia, houve grandes lutas políticas sobre se a língua falada no ensino superior deveria ser língua regional ou hindi. Então eu voltei para Cambridge, terminei a minha licenciatura e, como não havia Sociologia lá, decidi partir. E parti para a África.

Naquele tempo eu não me preocupava com qual emprego eu teria, porque havia um estado de bem-estar social e eu tinha um diploma de Cambridge. Hoje em dia seria uma história completamente diferente: eu provavelmente estaria completamente endividado. Fui para a África do Sul onde trabalhei como jornalista, durante seis meses, em tempos muito turbulentos com um regime muito repressivo. De lá, fui para a Zâmbia, onde haviam me dito que, se eu queria ser um sociólogo, o interessante não seria estudar os trabalhadores, mas estudar as empresas de mineração na Zâmbia. Duas empresas multinacionais possuíam as sete minas de cobre que forneciam 95% da receita estrangeira do país. E meu projeto foi estudar como essas corporações
multinacionais estavam agindo na Zâmbia pós-colonial.

MAS COMO VOCÊ FOI PARA A ETNOGRAFIA?
Bem, me tornei uma fi gura muito poderosa na política de integração nas minas do cinturão de cobre africano por conta da minha licenciatura. Eles estavam tentando integrar a estrutura salarial dos brancos e dos negros. Isso era um problema matemático e quem disse isso a eles fui eu. Então comecei a fazer uma pesquisa de opinião com os mineiros e levei os questionários com os resultados preliminares para um antropólogo chamado Jaap van Velsen, na Universidade da Zâmbia. Então ele passou uma hora me dizendo o quão estúpido eu era e que “ninguém deveria fazer questioná-rios porque eles dão por certas as respostas e não examinam realmente o que está acontecendo”. De qualquer forma, ele me convenceu em uma hora de que eu estava perdendo meu tempo e de que eu deveria ser um etnógrafo. E nunca mais mudei de opinião, mesmo que agora tenha mais respeito para com as pesquisa de opinião, pois aprendi que sempre há muitas utilidades para ela.

PODERIA NOS CONTAR BREVEMENTE O QUE ENCONTROU NESSA PESQUISA?
Eu estava interessado na questão da ordem racial na Zâmbia pós-colonial. O projeto do movimento de independência era eliminar o colonialismo e o racismo. Durante o período colonial havia algo chamado “barra de cor”, na qual brancos sempre mandavam nos negros. Eram brancos acima dos negros em todas as posições das minas. Eu queria saber o que havia acontecido com essa “barra de cor” e descobri que ela continuava basicamente a mesma. O que ocorreu foi que os zambianos haviam sido promovidos para os empregos dos brancos enquanto os brancos haviam sido promovidos para novas posições. Assim, havia sempre uma forma de manipular a organização para que parecesse estar havendo progresso, mais zambianos em empregos brancos, mas na prática a “barra de cor” permanecia. O que eu argumentava era que os interesses de classe das corporações multinacionais e da nova elite no comando do governo reproduziam o racismo. Eles tinham o interesse de manter os lucros do cobre, sua vida inteira dependia desses lucros. Portanto, o seu argumento era “não toque na indústria de mineração, se é racismo, bem, não se preocupe. O dinheiro é mais importante”. Então eu produzi um relatório no qual mostrava que, através de um conjunto complexo de processos, a “barra de cor” estava sendo reproduzida. E houve muita discussão pública sobre o relatório porque a indústria de mineração era central para a economia, e o racismo era uma questão bastante sensível. As empresas não queriam que eu publicasse o estudo, mas acabaram delegando a decisão ao governo, que concordou com a publicação.

Lech Walesa foi líder do movimento sindical Solidariedade, Nobel da Paz de 1983 e presidente da Polônia entre 1990 e 1995

ENTÃO VOCÊ VAI PARA CHICAGO…
Depois de dois anos na Zâmbia me deram uma bolsa de estudos para fazer o mestrado em Antropologia Social. Eu fui o primeiro mestre formado pela Universidade da Zâmbia, era uma universidade muito nova, e havia toda uma questão de se um estrangeiro branco devia realmente usar os recursos do país. Eu queria ir para os EUA porque tinha boas memórias de lá e porque o país era a fonte de todas as teorias de desenvolvimento que eu pensava ser muito mal concebidas na compreensão do terceiro mundo. O que os teóricos da Teoria da Modernização ou da Teoria do Desenvolvimento estavam dizendo era que a África não poderia se desenvolver porque as pessoas não tinham os valores corretos, eram muito ligadas a suas famílias e não eram cidadãos modernos. Isso não fazia sentido para mim, eu tinha um argumento muito mais marxista sobre o caráter de classe da Zâmbia pós-colonial. Mas eu queria ir para o lugar de onde essas teorias vinham e Chicago era uma das fontes principais.

CHICAGO FOI O LOCAL DE NASCIMENTO DE UMA IMPORTANTE ESCOLA DE SOCIOLOGIA.
Sim. A etnografia da Escola de Chicago veio como reação para a pesquisa de opinião na década de 1920 e 1930. E eles queriam captar a experiência partindo de baixo.

VOCÊ FOI INFLUENCIADO POR ELA?
Negativamente. A Escola de Chicago é muito famosa por tentar compreender o processo de urbanização. Mas quando estudavam alguma comunidade eles a enclausuravam. Eles diziam “há a estrada de ferro aqui, um arco ali, o gueto lá: vamos estudar apenas o que está nestes limites”. Toda a minha formação na África se deu no sentido de que não é possível enclausurar uma comunidade, devemos vê-la em um contexto histórico e geográfico e também no contexto político e socioeconômico. Eu queria começar a partir do micro e, em seguida, passar para o macro. Quando estudei o processo zambinização comecei com os processos nas minas e vi como as forças do Estado, as empresas de mineração, as organizações da classe operária e o sindicato moldavam juntos a situação. Não se pode entender o que está acontecendo aqui sem olhar para lá.

E O QUE O LEVOU PARA A FÁBRICA?
O que eu descobri quando vim para Chicago era que ninguém mais estava interessado na África. Eles tinham se envolvido por um curto período e, em seguida, perderam a curiosidade, eu suponho, porque a história africana tornou-se uma história trágica, e sociólogos não estão interessados em depressão ou recessão. Então eu disse: “Ok, vocês não estão interessados na África, então eu vou me engajar no seu próprio terreno”. E fui trabalhar em uma fábrica. Houve estudos em fábricas na Escola de Chicago na década de 1950, mas quando eu estava lá ninguém estava estudando fábricas. Eu queria saber como era ser um trabalhador em uma fábrica, estava interessado na consciência de classe e nas organizações de trabalhadores por meio da abordagem marxista que havia começado a desenvolver na África. Trabalhei lá por um ano como operador de máquina. Quando cheguei no chão da fábrica imediatamente entendi que aquelas pessoas estavam trabalhando duro e minha pergunta era: “Por que as pessoas trabalham tão duro assim?”. A Sociologia industrial sempre tomou a posição gerencial dizendo “os trabalhadores estão sempre preguiçosos, eles não trabalham duro o suficiente”, e, na verdade, eles estavam trabalhando muito duro. E, de fato, por muitos meses eu não conseguia alcançá-los, eu não conseguia trabalhar no mesmo ritmo. Assim, com essa pergunta eu virei a Sociologia industrial de cabeça para baixo. É claro que havia problemas marxistas também. Exemplo: Por que os trabalhadores dão tão duro a ponto de produzir lucros para os capitalistas? Qual era a fonte daquele tipo de motivação subalterna? Eu acho que havia três respostas: uma era, e talvez a resposta mais geral, que para sobreviver a tantas horas desse trabalho muito árduo e muitas vezes não muito emocionante, mas bastante desafiador, constrói-se o trabalho como um jogo. Você tenta fazer todo o processo do trabalho como algo interessante e desafiador, e víamos isso como a única maneira de sobreviver às oito horas. Todos partilhavam do mesmo jogo e avaliavam uns aos outros para se certificar
de que estavam realmente cumprindo os objetivos do jogo, chamado de “making out”. O objetivo era produzir a uma taxa que estava entre 100 e 140% da meta, o que, naturalmente, era do interesse da gerência. Assim, o jogo o leva a produzir lucros para o capital, e assim se fabrica consentimento. Quando se joga “making out” toma-se tudo como natural, o capitalismo é visto como algo dado, como quando se joga xadrez, não há questionamento das regras. Desse modo, o jogo foca o trabalhador em jogar e ganhar o jogo e não nas relações capitalistas que realmente fazem aquilo necessário. Havia um outro dispositivo que fazia com que as pessoas trabalhassem tão duro. Um deles é chamado de “mercado interno de trabalho”. Isto é, se as pessoas não gostassem de seu trabalho elas poderiam se oferecer para outro emprego. Um comunicado era publicado e todo mundo poderia se oferecer para a posição e, dependendo do seu tempo de casa, quanto tempo você esteve na fábrica e da sua experiência, você conseguiria o emprego ou não. Com isso você ganha uma chance de mobilidade, quanto mais tempo na fábrica melhor sua posição. Se perder seu emprego você tem que ir para outra fábrica e começar debaixo de novo. Então há um interesse do trabalhador na continuidade e rentabilidade da fábrica. A terceira resposta vinha das negociações
coletivas, a forma como os sindicatos e a gerência negociavam. O sindicato negociava os salários e benefícios e, se a fábrica estava indo bem, um pouco mais pingaria para os trabalhadores.
Havia uma coordenação de interesses nesse contexto sindical: quanto mais a fábrica lucrava mais os salários e os benefícios aumentavam. As críticas feitas pelos trabalhadores sempre eram no sentido de “o sindicato foi vendido para a gestão, há um conluio da política com a gestão, etc.”, nunca uma crítica do capitalismo. A categoria “capitalismo” não entrava na discussão, era invisível.
Eu queria mostrar como o consentimento é produzido por meio da prática real no local de trabalho. Argumentava que o engajamento das pessoas no processo de trabalho não produzia a consciência de classe, como diria Marx, mas produzia um consentimento para com o capitalismo. Os marxistas diziam que o consentimento para com o capitalismo estava lá na sociedade civil,
no Estado, no mercado, mas não na produção. Assim, a novidade do estudo foi mostrar o local de trabalho como uma ordem política na qual o consentimento é produzido como uma ideologia
emergente a partir da experiência das pessoas.

ENTÃO VOCÊ FOI PARA A HUNGRIA?

Fiz o trabalho de campo (em Chicago) de 1973 a 1974. Era o ápice do que chamei de “organização hegemônica do trabalho”, estava usando uma ideia da hegemonia Gramsci. Depois que parti, as indústrias no sul de Chicago entraram em declínio. Eu pensava que a organização hegemônica de trabalho seria permanente, mas estava muito errado. Ela desapareceu muito rapidamente no final dos anos 70 e início dos 80. Uma razão para isso foi a concorrência internacional e a outra foi a agressividade do governo Reagan contra os sindicatos. Os sociólogos dos EUA me criticaram muito. Eles diziam “veja, Burawoy, você está falando sobre o capitalismo, mas isso não é capitalismo, é industrialismo. E a indústria não tem nada a ver com o capitalismo”. Eu dizia “não, isso tem a ver com o capitalismo e eu vou mostrar para você. Estou indo para a Europa Oriental para comparar a fábrica na qual trabalhava em Chicago com uma fábrica em um socialismo de Estado. E vou mostrar, essa foi a minha hipótese, que no socialismo de Estado as coisas são diferentes”. O livro Manufacturing Consent foi lançado em 1979 e em 1980 surgiu o movimento Solidariedade na Polônia, que capturou o interesse de muitas pessoas, incluindo o meu próprio. Essa foi a primeira luta de classes que englobava a sociedade toda em muitos anos e me perguntei: “Por que aconteceu lá e não no capitalismo avançado, onde de veria acontecer?”. Eu queria entender o porquê desse movimento de classe na Polônia e me perguntei: “Será a organização do trabalho e consciência da classe trabalhadora no socialismo de Estado diferente da encontrada no capitalismo avançado?”. Eu queria fazer isso em 1981, mas já era tarde demais. Houve um golpe de estado em dezembro daquele ano que punha fim à possibilidade de ir para a Polônia. Então um amigo meu, János Lukacs, me convidou para ir para a Hungria e fui para lá em apenas dez dias. Foi inacreditável. Decidi estudar a organização do trabalho no Estado socialista húngaro durante os anos 1980. Depois de um emprego na fábrica de Champagne eu finalmente consegui trabalho em uma fábrica muito semelhante àquela do sul de Chicago com a qual eu poderia fazer a comparação.

E O QUE VOCÊ ENCONTROU?
Bem, os trabalhadores ainda jogavam, mas em Chicago havia sempre garantido um salário mínimo, embora eu pudesse perder meu emprego. Eu tinha a segurança de salário, mas a insegurança no emprego. Na Hungria era o completo oposto. Lá eu tinha a segurança do emprego, eu não poderia ser demitido, na verdade, trabalho é obrigatório, mas insegurança de salário. Lá você recebia o que produzia, enquanto em Chicago, mesmo que eu produzisse 50%, recebia 100% do salário. Então, se você olhar para o sistema húngaro ele é exatamente como Marx descreve o capitalismo do século XIX na Inglaterra. Mas havia outra diferença que era política. Em Chicago o sindicato tinha autonomia em relação ao Estado e, creio eu, relativa autonomia da gerência. Já na Hungria o Estado estava na ponta da produção. O partido político, o Estado e os sindicatos eram uma troika, estavam trabalhando juntos em conluio. O Estado Socialista Húngaro era dirigido por um partido que dizia à população: “Nós representamos seus interesses. Essa é uma sociedade igualitária, uma sociedade justa e uma sociedade eficiente”. Nós tínhamos rituais no chão de fábrica que celebravam as maravilhas do socialismo. E os trabalhadores diziam: “Será? Você diz justiça, nós vemos injustiça, você diz a igualdade, vemos a desigualdade, você diz eficiência, vemos ineficiência”. Eles tinham uma visão crítica do socialismo; não acreditavam que a Hungria se aproximava do verdadeiro socialismo, mas endossavam valores do socialismo. Eles criticavam a ideologia em seus próprios termos o que, em Sociologia, é chamado de uma crítica imanente. Todo o vocabulário do “socialismo” era parte de suas vidas, e eu pensava que haviam desenvolvido uma consciência de classe a favor do socialismo. Mas eu estava errado. Lembro-me de quando houve um acidente na fábrica e o chão foi coberto com metal fundido, e eles estavam dizendo “olha, isso nunca poderia acontecer de onde você vem”. Então, eles já estavam imaginando o capitalismo como superior ao socialismo. Ao invés de criticar o socialismo em seus próprios termos, eles estavam dizendo “esqueça socialismo, capitalismo é me-lhor!”. Mas nos anos 80 não apenas os trabalhadores haviam abandonado o socialismo, a gerência tinha desistido também. O partido tinha esgotado todas as possibilidades de fazer o socialismo funcionar.

POR QUE, ENTÃO, IR PARA A RÚSSIA?
Quando eu estava na Hungria, em 1988, todos podiam ver que algo muito estranho estava acontecendo e, em 1989, houve a transição. Mas eu nãoestava interessado na transição do socialismo para o capitalismo de Estado. Eu estava na Hungria porque estava interessado na transição do socialismo de Estado para o socialismo democrático, do tipo que eu vi em uma forma embrionária na Polônia. Então decidi ir para a última forma do socialismo de Estado ainda viva: a União Soviética. Isso foi em 1989, quando caiu o muro de Berlim e o comunismo na Europa Oriental. A União Soviética caiu apenas no final de 1991. Então, comecei a trabalhar na União Soviética no início de 1991. Lá estudei uma fábrica de borracha e uma fábrica de móveis. Assim que o mercado começou a aparecer, a estratégia da nova elite foi destruir tudo. Eles pensavam que ao destruir o passado o mercado iria surgir espontaneamente. Bem, o mercado surgiu, porém não teve o efeito de produção, mas de um capitalismo comercial. Não havia instituições para o mercado e não havia horizontes de longo prazo. Assim, as pessoas que adquiriram as fábricas queriam lucros rápidos, elas não estavam interessadas em investimentos, mas em vender o que conseguiam, e desse modo desmantelaram a indústria. A expansão do mercado foi destrutiva para a economia, algo que chamei de desacumulação primitiva, um processo violento de destruição da economia socialista de Estado. Eu estava trabalhando lá por um ano e parecia antiético continuar trabalhando, porque
todos estavam perdendo seus empregos. Então eu estudei o declínio da economia e como as pessoas estavam sobrevivendo entre 1992 e 2002.

E COMO ELAS ESTAVAM SOBREVIVENDO?
A família tornou-se o centro crucial da economia e as mulheres tornaram-se o centro da família, enquanto os homens estavam perdendo seus empregos e tornando-se parasitários. O nível de desemprego das mulheres era inferior ao nível de desemprego dos homens, porque os empregos industriais estavam desaparecendo. Não foi uma revolução ou uma evolução como as pessoas queriam, mas uma involução, uma degradação da economia.

 

*Bruno Tripode Bartaquini é jornalista e foi editor da revista Leituras da História. Agradecimento especial ao professor do Departamento de Sociologia da USP, Ruy Braga, colaborador da revista, que ofereceu a sua sala para esta entrevista com Burawoy.

Revista Sociologia Ed. 60