Violência pelo mundo

Rampage shootings, terrorismo e outras manifestações sob análise sociológica

Por Ana Paula Silva* | Fotos: Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

Segundo Wieviorka, há um aumento da violência infra e metapolítica a partir dos anos 1990, no entanto não há uma definição específica de ambos os conceitos. Eles aparecem em sua obra relacionados a um processo histórico e, geralmente, ilustrados por exemplos. No intuito de estabelecer a definição clara do que consiste cada conceito, vale recuperar resumidamente os pressupostos de Wieviorka. Assim, a violência instrumental (roubos, laticínios etc.), o narcotráfico, a privatização da violência estariam incluídos na violência infrapolítica. Segundo ele, em alguns casos a violência infrapolítica pode se revelar como pré-política, podendo assumir posteriormente feições políticas. Nesse caso, o conceito de político para Wieviorka se constitui como estrutura organizacional do Estado.

 

Tendo como base sua abordagem sobre o neoliberalismo e sua compreensão da importância do conflito social, compreende-se que a violência infrapolítica pode ser descrita como aquela que evidencia uma lacuna de assimilação de pressupostos básicos da cidadania. Em consequência, ela está mais propensa a acontecer onde não há uma tradição histórica de construção dessa estrutura de valores democráticos. Encaixa-se, portanto, nesse tipo de violência todo o conjunto de expressões que relevam uma inaptidão à convivência com a alteridade.

 

 

No segundo caso, a violência metapolítica, Wieviorka traz como exemplo principal o terrorismo, mas também podem ser incluídos os rampage shootings. A violência tem um sentido absoluto, inegociável e geralmente sem alvos específicos, porque ela se destina a toda uma estrutura social na qual o indivíduo não conseguiu reconhecimento e não possui repertório para se expressar através de um sentido político ou achar categorias e formas de lutar por reconhecimento. Esse tipo de violência tem uma propensão maior a acontecer em sociedades saturadas de sentido político, geralmente em resposta ao processo de transformação da modernidade que foi estruturado nos países de capitalismo central. Pode ser interpretado também como consequência de uma insegurança ontológica própria da crise da modernidade.

 

Rampage shootings

Estes massacres são, na sua grande maioria, executados por jovens em escolas, shopping centers, cinemas, templos e comunidades religiosas. Estes ataques são premeditados e não há um único alvo estabelecido para o ataque, sendo que, em geral, o atirador acaba se suicidando. Sobretudo no contexto norte-americano, há a formação de sujeitos vulneráveis e isolados que sofrem preconceito e que não se vinculam a grupos consolidados, relacionados às noções de gênero, raça/etnia, nacionalidade, religião etc. E, devido também a isso, possuem dificuldades de se articular e agir politicamente. O caráter inegociável dos rampage shootings e sua nítida referência a problemas na socialização contribuem para o entendimento de que essa violência é típica da modernidade tardia e está associada à dificuldade de agir politicamente no mundo contemporâneo.

 

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Adaptado do texto “O novo paradigma da violência e as transformações no capitalismo”

*Ana Paula Silva é doutora em Sociologia pela Unesp-Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara. Professora de Sociologia nas Faculdades FACCAT – Tupã. Pesquisadora do Laboratório de Política e Governo da Unesp-Araraquara.