Violência socializada no MMA

A salvo de golpes, socos, murros, cotoveladas, estrangulamentos, quedas, chutes, pontapés e espancamentos, o telespectador vai se identificando subliminarmente com o espetáculo dos combates que assiste e, por meio deles, revisita seus instintos mais primitivos de animalidade, agressividade e violência

Por Alexandre Quaresma* | Foto: Reprodução | Adaptação web Caroline Svitras

Nosso objeto de crítica antropossocial e cibercultural será o MMA (Mix Marcial Arts ou Artes Marciais Mistas), esporte combativo de lutas – como o próprio nome leva a crer –, que nos dias atuais arrebata milhões de fãs pelo mundo todo. Neste contexto há – e é justamente isso que nos interessa analisar – uma copiosa sublimação telemático-cibernética da violência física instintiva humana, principalmente a partir do momento em que o telespectador participa das lutas (emocional e psicossocialmente) sem a necessidade de se comprometer (física e corporeamente) com os referidos embates.

 

As perguntas centrais de nossa reflexão são: (1) por que esta realidade de violência-controlada encontra eco e se consolida socialmente, e (2) qual o papel social deste tipo de esporte na sublimação da violência nas coletividades humanas? Ou seja, nos interessa saber de onde resulta esse sucesso exponencial do esporte, outrora chamado de Vale-Tudo. Uma pista pode estar em Edgar Morin O Método 2: A vida da vida (2001:367): “A ‘boa sociedade’, a da liberdade, não pode expulsar, irrevogavelmente, desordens, antagonismos, conflitos. Deve tentar transformá-los em inventividade, liberdade, jogo, competição”.

 

A Violência Controlada

Refletimos desde uma ótica analítico-simbólica de sublimação catártica coletiva da violência humana, sempre viva e latente, que se identifica especialmente – mas não só com ela – com a própria socialização, enquanto finalidade social primeira de qualquer atividade coletiva. Pretendemos demonstrar, numa única e abrangente resposta às duas questões propostas, que o que garante o sucesso, penetração e crescimento exponencial do esporte MMA são justamente seus aspectos mais violentos e sua funcionalidade social. Isso enquanto ‘válvula de escape’ desta mesma violência que – pretensamente domada e domesticada por nossas culturas secularizadas e milenarizadas, já de certo modo socializada e bem camuflada em hábitos civilizatórios – dá sinais claros de ainda estar latente e ativa em cada um de nós humanos. Esta aflora mais visivelmente na catarse dos lutadores em oposição no centro da cena do MMA, mas também nos membros, adeptos, aficionados, profissionais e fãs do esporte, que ali também se entretêm e se identificam com o espetáculo ou espetacularização da violência, e, principalmente, se utilizam deste fenômeno catártico/coletivo – na maioria das vezes inconscientemente – para sublimar a parcela de violência e agressividade que cada um traz consigo – podemos dizer – geneticamente.

 

Crianças e o consumo

 

Numa só palavra: trata-se de uma violência controlada e eventual, que dá vazão aos nossos próprios instintos de animalidade, violência e agressividade naturais, de maneira pontual e pactuada, instintos estes que se encontram – por motivos diversos – contidos e reprimidos devido à nossa própria civilização e socialização, e por meio do esporte se libertam. O espetáculo encarna uma catarse transpessoal intensa – afirmamos –, experimentada pelos espectadores e telespectadores, onde estes vão provando da adrenalina e da violência primitiva dos embates físicos sangrentos – que remontam à aurora de nossa própria civilização – sem que para tanto arrisquem suas próprias integridades físicas pessoais.

 

Funcional e necessária

Há uma espécie de contradição funcional de certo modo necessária prevalecendo nestas interações telemático-cibernéticas que se proliferam socialmente. O fato é que, independentemente de gostarmos ou não destes fenômenos de violência controlada – destas lutas esportivas bárbaras, no amplo significado que este termo adjetivo pode abarcar – estes desempenham um papel importantíssimo em nossa socialização, na construção e significação de nosso mundo, e estão presentes nas estruturações das sociedades humanas de todos os tempos e todas as épocas.

 

Parece necessário socialmente que haja lutas físicas em ambientes específicos e controlados, para que a violência não ganhe indiscriminadamente as ruas, e se degenere em pura e brutal barbárie descontrolada. Nossas reflexões encontram eco nos escritos do sociobiólogo Edward O. Wilson (2012:77,81): “sua ânsia [de um indivíduo qualquer] pela participação num grupo e pela superioridade deste pode ser satisfeita com a vitória de seus guerreiros nos embates em campos de batalha ritualizados(…) existe pouca ou nenhuma culpa no prazer quando se assiste a eventos violentos”. Assim, por meio desse esporte, há uma ritualização da violência, e, através desta ritualização, dá-se a sublimação.

 

 

No caso do MMA, trata-se de uma guerra física, de força bruta, é verdade, mas também de um esporte que requer estratégia, técnica e muita dedicação por parte dos lutadores. Os duros treinamentos que antecedem as lutas e as próprias pesagens, ou seja, ter que manter o peso da categoria a que se pertence, exigem muito dos atletas. As próprias pesagens propiciam um espetáculo à parte, onde se dão provocações mútuas entre os oponentes, fato que aquece ainda mais o clima que precede os combates. O evento acontece em um estádio lotado de torcedores simplesmente ensandecidos, intimamente envolvidos com o espetáculo e totalmente identificados com os lutadores que entrarão em cena. Como em todas as relações telemático-cibernéticas que construímos, o telespectador se sente envolvido pela emoção do que assiste, e, de certa forma, sente-se na pele do próprio lutador com o qual se identifica mais.

 

Tudo se dá em conformidade absoluta com o Contrato Social, vigente desde antes de Rousseau, e suas implacáveis exigências civilizatórias que, sempre, infalivelmente, objetivam, mesmo que brutal e toscamente, a manutenção da vida em sociedade. De fato, não há novidade alguma no processo de embate físico propriamente dito experimentado no MMA, já que este faz parte essencialmente de nossa cultura e humanidade desde o início dos tempos. Os próprios praticantes e promotores se referem aos lutadores, em tom de enaltecimento, é claro, como os ‘gladiadores modernos’. As mídias marcam presença massiva no show que não tardará começar. São TVs, jornais, revistas especializadas, sites de luta e a própria transmissão ao vivo, que atualmente alcança mais de 140 países, e só no Brasil estima-se mais de 50 de milhões de telespectadores. Uma só luta pode movimentar mais de 150 milhões de dólares, incluindo patrocínios, apoios e merchandising etc. O MMA, segundo os próprios organizadores, é o esporte que mais cresce no mundo na atualidade. São sempre patrocinadores de peso que financiam tudo, já que desejam ver seus nomes e marcas associados ao esporte. No centro da cena estão atletas de alta performance que dedicam suas vidas a esse tipo de atividade.

 

Socialização catártica

É chegada a hora. As luzes do estádio se apagam. O público da arena se agita. Ouvem-se assovios e grunhidos frenéticos em meio à multidão. Surge uma luz, é o primeiro combatente que se aproxima da arena, logo virá o outro. Cada lutador faz sua entrada triunfal e coreográfica ao som de um tema musical específico de sua escolha e preferência. Um canhão de luz o acompanha até o centro do teatro de guerra. O nível de adrenalina cresce substancialmente. A audiência se excita. Os olhos do mundo agora estão voltados para eles, enquanto avançam intrépidos rumo ao palco de batalha. O público vai literalmente ao delírio. Gritos, faixas, torcidas, assobios, vaias, frenesi – tudo ao mesmo tempo.

Medo para o controle social

 

O octógono – espécie de ringue de oito lados onde se dão os combates – assemelha-se muito a uma jaula, que é trancada por fora depois da entrada dos dois oponentes e do juiz que mediará a luta. Dali só sairá um vencedor. O árbitro chama os lutadores para as últimas instruções no centro do ringue, antes do início da luta. A derradeira encarada dos lutadores – que são também atores e avatares desta catarse simbólica – é mutuamente intimidadora, de meter medo. Eles realmente parecem se odiar. Estão confiantes… Estariam também – perguntamos – representando um papel social útil à coletividade? Vetorizando as agressividades e violências latentes daquela incomensurável platéia? Seja ela presencial ou não? Agindo como personificadores de nossas animalidades reprimidas? Esse parece ser definitivamente o caso.

 

Aquilo – os narizes de ambos quase se tocando no cara a cara final – literalmente toca fogo na multidão que vê tudo ao vivo e ao mesmo tempo nos imensos telões que abundam em todas as direções que a vista pode alcançar, e nos milhões de lares conectados, e essa multidão deseja, precisa, necessita, visceralmente, daquela guerra humana devidamente controlada, ordenada, conformada, ajustada, contratada, prevista e aguardada. Multidão que deseja isso para poder se sentir viva, plena, adrenalizada, para sentir-se realizada, empoderada, para realizar sua catarse de violência. Não se trata apenas de entretenimento superficial sem sentido, pelo contrário: estão envolvidos ali os nossos instintos mais primitivos, ou, no mínimo, representações deles, adaptações deles, assim como a ação residual de nosso cérebro límbico, de nossa guerra simbólica pela própria vida, pela prevalência entre as espécies e até semelhantes; enfim, falam em nós neste momento as forças bioquímicas da testosterona, adrenalina, endorfina, dopamina e de toda uma gama de substâncias necessárias à vida e que são lançadas aos montões em nossa corrente sanguínea de acordo com a situação e a necessidade.

 

O confronto

A luta começa. A brutalidade possível foge à imaginação. Dois seres humanos se lançam numa batalha lancinante, como se nada mais lhes restasse. O octógono, devido às lutas preliminares, está repleto de manchas de sangue. Uma dúzia delas. São poças secas ou ainda úmidas. Em alguns pontos, enegrecidas. Todos sabemos como é difícil remover manchas sanguíneas. É a marca indelével do preço que se paga, ou melhor, que se está disposto a pagar por tais emoções. Ambos são agressivos e possuem muita técnica, tornando o embate, por isso mesmo, feroz e emocionante. O objetivo explícito perseguido pelos lutadores deste esporte é atingir o oponente de preferência no rosto ou na cabeça, de modo a provocar o nocaute imediato. Valem também estrangulamentos, chaves de pescoço, de perna, braço, joelho, tudo que possa provocar a desistência por dor insuportável do adversário. Estes homens e mulheres vão ao extremo, transcendem parâmetros, rompem limites físicos e mentais.

 

Dois tempos de cinco minutos já se passaram, caminha-se agora para o terceiro e último. A troca de pancadas é franca. Ambos sempre precisam da vitória. Para eles significa ascender ou decair no ranking mundial da categoria, e isso logicamente se traduz financeiramente, pois significa mais contratos, mais patrocínios, melhores condições de trabalho, e assim por diante.

Violência urbana e o medo

 

Eles se engalfinham e vão para o chão. Lá se contorcem, debatem-se, até que e um deles consegue escapar e se levantar. A luta prossegue dura, aguerrida. Um deles está sangrando abundantemente no rosto. De repente, um golpe mais certeiro e preciso entra no queixo do oponente. O corpo enorme e musculoso do adversário despenca como se tivesse sido ‘desligado da tomada’. É o fim para ele. Está inconsciente. Seu oponente – de imediato – vibra, comemora, grita, extrapola, extravasa sua emoção e adrenalina no triunfo compartilhado, se lança em êxtase contra as grades do ringue, enquanto que a multidão o ovaciona, grita seu nome. Um interminável minuto se passa. O vencido começa a se refazer e voltar a si. Parecem estar acostumados a absorver estes impactos brutais. Uma pessoa normal não aguentaria um décimo daquela violência. A multidão está plena em seu orgasmo sublimador e catártico. Numa prova viva de espírito esportivo os dois se cumprimentam e se abraçam fraternamente e agora parecem não ser inimigos, mas amigos de longa data. No fim das contas aquela animosidade excessiva entre ambos serviu para promover a luta, como é tradição desde os tempos do Boxe.

 

Considerações Finais

Literalmente extenuado e totalmente absorvido, revigorado mesmo, o telespectador-lutador conseguiu extravasar e sublimar uma importante quantidade de tensão reprimida, violência e animalidade, pôde ainda experimentar a angústia e as emoções da luta e da própria violência, que certamente emergiriam de outra forma qualquer, se não fossem socializadas. Há uma espécie de alívio reconfortante no ar. Tudo correu absolutamente dentro do previsto. Houve um grande espetáculo de luta, onde dois competidores lutam pela primazia e prevalência, e, ao final, ninguém saiu ferido gravemente. Muitas escoriações, sangramentos e hematomas, mas nada que possa ser irreversível ou mesmo letal. Mais uma vez agimos de maneira civilizada liberando nossa animalidade e violência de forma controlada, parafraseando Edward O. Wilson (2012:77), “em campos de batalha ritualizados”. Eis o mal-estar da civilização nu.

 

*Alexandre Quaresma é escritor, ensaísta, pesquisador de tecnologias e consequências socioambientais, com especial interesse na crítica da tecnologia. É membro da RENANOSOMA (Rede de Pesquisa em Nanotecnologia, Sociedade e Meio Ambiente) e vinculado à FDB (Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera).
E-mail: a-quaresma@hotmail.com

Adaptado do texto “Violência socializada”

Revista Sociologia Ciência & Vida Ed. 48